Não, não. Não é legal, não importa o que aqueles sujeitinhos de camisa agarrada te digam, estufando o peito e discorrendo sobre os benefícios de comer banana e levantar peso. Dói, é humilhante e todos os seus órgãos se perguntam o quê, meu deus, eles fizeram para merecer aquilo.
Escuta só.
Segundo dia de treino, depois de me recuperar de quatro dias de dores de parto espalhados pelo corpo inteiro, e eu estou com de volta naquele lugar chamado academia. Não pertenço. No hay banda. Uma camisa Dry-Fit me agarra como se eu TIVESSE que mostrar meus mamilos para o resto da humanidade, a minha bermuda Hering cinza velha não sente pudores em expor em tons mais escuros a mancha enorme de suor da minha bunda e meus tênis, que eu deixei secando na chuva paulistana, estão deflagrando uma guerra química contra qualquer aparato sensível num raio de 50 km. Eu sou o pária da academia, e ajo como um: meus olhos só saem da folhinha amarela de exercícios para um ponto vago no espaço, entre o teto e o espelho, evitando os olhares de nojo para a poça de suor que deixo em todos os cantos que posso.
140 kg, é o que diz a folha amarela do meu treino. Um aumento de 20 kg desde a primeira vez que treinei - aquela vez que tudo ficou escuro por um momento e eu consegui, no banco do vestiário, escutar as vozes de meus antepassados me chamando de longe enquanto tentava assegurar algum colega de academia que estava bem, ali mesmo, estirado e ofegante("Tô ótimo, é shiatsu, você devia tentar, juro! Tremores, você diz? Que nada. É terapêutico. Meu ouvido está sangrando, você diz? Bobagem, no começo é assim mesmo).
140 kg... Encaro o aparelho de ginástica em questão, um instrumento de tortura medieval remodelado, laqueado com tinta cinza brilhante e apelidado de Leg Press. Coloco a carga exigida pela minha treinadora, que vi exatamente uma vez na vida e é responsável por determinar meus próximos desafios super Bio Ritmo a uma distância segura de minha figura patética. Entro na máquina e me agacho, parando por um minuto na posição primitiva para escutar todos os meus músculos implorarem: "fique assim, só mais um pouquinho, só um pouco, por favor, fique nessa posição para todo o sempre, eu suplico...". Força. Estrelinhas faíscam no canto da minha visão. Dor, dor dor dor. E então, a vitória. A VITÓRIA! 140 kg nas minhas pernas! Eu estou de pé! Eu sou Aquiles! Sou Abbaddon, o destruidor de mundos. Sou Mezcantitlopl, o --
Algo interrompe minha epifania, e não estou falando do grande tendão que estalou algum lugar próximo da minha bunda. Estou falando de uma senhora meio raquítica que está movendo os lábios para mim, mas não a ouço. Tento controlar meus tremores enquanto tiro os fones de ouvido. Tento sorrir também, tento, e só consigo quando vejo o desfibrilador de emergência diretamente atrás da velha raquítica. Oh, velho amigo, você esteve aí o tempo todo...
A senhorinha quer dividir o aparelho comigo. Véia safada... Concordo, e cambaleio para fora do instrumento. A senhorinha toma meu lugar como quem diz "xô, baratinha, vá limpar o suor da bunda" e coloca uma carga de 180 KG. 180 kg! Essa desgraçada come giletes e parafusos de manhã?! Maldição.
Como se não bastasse, na minha vez de usar o aparelho ela fica ali do lado, ignorando solenemente os meus fones de ouvido propositalmente altos, altos para todo mundo escutar Nine Inch Nails e manter distância - ela ignora os fones, dizia, e conversa comigo. Ela conversa enquanto eu levanto o peso do mundo nos ombros, enquanto meus tendões gritam por clemência e aqueles mosquitinhos invisíveis voltam a aparecer no meu campo de visão.
Dor, dor, é tudo dor. Dor e a vontade insana de dizer:
- Olha, dona, eu estou tentando não me CAGAR TODO aqui e você não está ajudando!
Ah, aí ela ia ver. Maldita velhinha. Eu falaria isso, roubaria aquele desfibrilador de emergência e correria como se não houvesse amanhã, as pernas cheias de ácido láctico, tropeçaria escada abaixo para fora daquele god forsaken place, deixando para trás uma velhinha raquítica pasma, deixando para trás todos aqueles pesos e aquela gente fortinha e imbecil e - meu deus, sim, na saída eu daria um belo chute no CU daquele DJ imbecil que coloca aquelas músicas imbecis naquele lugar imbecil e cheio de dor, peso, gente imbecil e... e... e peso e gente imbecil, você está me entendendo? Precisa de mais?!
Mas eu não faço. Eu apenas sorrio e digo: "dureza, é, é dureza mesmo, essas coisas que a gente faz, hi, velhinha, hihi, velhinha assanhada, tira os olhos dos meus mamilos, velhinha". E vou suar em outro lugar.
segunda-feira, 5 de abril de 2010
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