Paris.
Missão: comprar alho sem falar uma palavra de francês.
Era uma noite fria e cansada. A exasperadora volta ao studio de 14 metros quadrados não prometia mais do que um macarrão com molho de tomate enlatado. Ingredientes. Eu já havia me virado com o azeite e o extrato duplo de tomate, uma lata horrível com uma substância entre pastosa e granulosa que, em contato com as mucosas do corpo humano, causa salivação intensa e palpitações. Uma lata desse negócio pode ser diluída em 50 litros de água e se tornar um molho de tomate enjoativo, suficientemente nutritivo para atravessar uma guerra mundial enfiado num porão.
O alho que agora eu e minha namorada procurávamos nos commerces de esquina teria a missão de tornar o nosso molho de tomate mais suportável. Escolhi um em uma rua erma, sem testemunhas.
Aproximei-me do dono do commerce com palavras fáceis. "Excuse moi, monsieur", e então, desprezando verbos e contruções léxicas complicadas, parti direto ao substantivo: "ail". Agora, eu não sei falar "ail". Aliás, nem sei se essa é a palavra para "alho" em francês - neste caso, o meu conhecimento desse vocábulo dependia de uma embalagem de vinagre com alho que eu havia visto no mercado mais cedo.
Suponho que minha pronúncia tenha sido especialmente lamentável. O francês apenas me encarou, como nós também faríamos se um estranho numa noite fria, vestido com uma toca e um casaco puído, checasse os arredores para se assegurar que não havia testemunhas e nos falasse, com uma mão no bolso:
- Senhor, com licença. Ééil.
Puro Lynch. Apavorante até a medula.
Senti o cheiro de adrenalina francesa escapando das axilas de monsieur, seguida da cotovelada profunda que minha namorada aplicou sobre minha quarta costela direita. Portanto, sorri. O francês sorriu também.
Repeti, mudando a tônica e a pronúncia: "ééiyl". Nada. E então, de novo, "euil". Assim sucessivamente, até esgotar todas as possibilidades fonéticas que duas vogais e uma consoante poderiam propor. Imagino que acidentalmente falei apalavra basca para "bócio" e a chinesa para "pai" ou "vaso" (dependendo do contexto), e tenho quase certeza que invoquei um demônio egípcio e pedi uma enguia em inglês.
"Ah, oui!", disse o homem, num estalo, antes de entrar na loja para vasculhar as prateleiras. Imediatamente comecei a discursar para a patroa, massageando minha quarta costela, sobre as precedências do jogo de cintura. Citei Noel:
- Batuque é um privilégio, ninguém aprende samba no colégio!
Prossegui em meu argumento de auto-louvação apoiando os punhos fechados na cintura (minha representação de "jogo de cintura") e rebolando levemente, dizendo em pseudo-francês: "jeau de cintúrr, baby, jeau de cintúrr!". Foi assim que o comerciante flagrou-me, exibindo, entre o indicador e o polegar, um ovo. "Oeuf", dizia o paspalho. "Oeuf?".
Senti meus músculos faciais se contorcendo em perplexidade crônica inevitável. Como minha pronúncia "ail" pode ter sequer chegado perto da palavra "oeuf"?! E como, deus, explicar "alho" para aquele maldito comerciante surdo? Como fazer mímica de um alho? Olhei ao redor procurando qualquer objeto na rua que se assemelhasse a um alho, na esprança de que na vitrine da galeria de arte estaria exposto um quadro com um icônico alho, como a banana de Andy Warhol. Em vão. Desesperado, apelei copiosamente ao "jeau de cintúrr", mas já havia perdido o mojo: acabei gaguejando compulsivamente, e então gritei "vichyssoise!" ao comerciante.
Seu rosto estremeceu em asco, como se tivesse visto em meu gesto o sintoma de uma doença cutânea contagiosa. Um momento depois, iluminou-se de novo. Apontou-me o alho-porró, sorrindo. Vibrei. Saltitando de empolgação, como num jogo de mímica, apontei também o alho-porró soltando monossílabos como "oh, oh, ah!", então juntei os dedos indicadores e os esfreguei, como dizendo "quase, quase isso, chuta de novo". Ele estava contagiado pela mímica. Possesso, olhou meu gesto soltando exclamações de epifania, correu até o interior da loja e trouxe um pedaço de queijo parmesão.
Derrota.
Reparei aí que minha namorada já havia me abandonado, fingindo não me conhecer do outro lado da rua. Fiquei furioso. Alho! Era alho! Alho não é tão difícil. Desesperado por qualquer mímica que remetesse ao bendito Allium sativum, levantei as mãos como se fossem garras e imitei um vampiro. É certo que o palpite de que eu era apenas um sujeito drogado com problemas de dicção retornou colossalmente à mente do francês. Ele desistiu, recuando cautelosamente. Olhei em volta e reparei que uma pequena platéia de franceses se amontoava ao meu redor. Não vi alternativa a não ser prosseguir com a mímica, confirmando a suspeita de surto psicótico. Levantei ainda mais as garras e fui me aproximando dos franceses da platéia. Haaaaarrr.
- Sácre bleu! - ouvi uma mulher dizendo, enquanto empunhava a câmera do celular com uma mão e alcançava o spray de pimenta com a outra.
Cortanto o ar gelado da noite parisiense, ouviu-se de uma rua adjacente uma sirene de polícia. Corri, sentindo nos tendões inferiores toda a deficiência amortecedora de minhas botas Timberland fétidas pelo abuso de meias usadas, até que dobrei o quarteirão.
Nada de alho no nosso molho naquela noite.
sexta-feira, 7 de maio de 2010
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