A época do Cursinho, também conhecida como o quarto ano de colegial da maioria das escolas particulares, é um limbo. Uma sala de aula cheia de pessoas que não se conhecem, todas carentes por atenção, um último conforto. Também conhecido como um bando de babacas, em suma.
Eu lembro bem da minha época. Estudava pra chuchu (mentira) no colégio e pegava carona até o cursinho, enquanto comia no carro com mais cinco pessoas (infelizmente, verdade). Não esqueço o cheiro tenebroso que saía da tupperware azul marinho de uma colega vegetariana. Parecia um vapor de sarcófago. Abríamos a janela, desesperados, mas os vapores, imagino, eram mais pesados que o ar, e insistiam em ficar no carro, grudar na roupa – outro dia, pensei ter até visto a nuvem fétida de tofu e grãos de soja voar esverdeada para fora da janela do carro, como aquelas almas penadas de filme B.
- Meu Deus, Gabi, o que você trouxe aí dentro?!
- Ai, seu bobinho. Carne é assassinato.
- Carne? Tofu é genocídio! Você sabe as crueldades que eles fazem com a soja para ela ir parar aí no seu tupperware?
Aí a discussão se interrompia porque outra colega, lutando com as lei de Newton - a da gravidade e aquela segundo a qual dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço -, emborcava algo como feijão preto (morno, ó deus, mooorno) na minha perna.
O Anglo Sergipe, meu cursinho, tinha uma filosofia de enfiar quantas pessoas coubessem em uma sala, para aumentar a renda e fazer com que todos prestassem atenção. As cadeiras eram como conchas de madeira que contorciam as lombares pueris para que ninguém sentisse uma gota de conforto. Dormir não era uma opção. Suspeito que eles enfiariam palitinhos para suspender nossas pálpebras, se fosse preciso. Mas não era, porque o cursinho é cheio de gente animadinha.
- BICHA!!!! BICHAAAAA! - gritava a turma do fundão quando o professor entrava.
- VEAAADOOO! VEAAADOOOOO! TAAAANGA! - bradiam ensandecidos, com fúria genuína enquando se erguiam e cravavam as unhas nas cadeiras.
- MOOOOORMAAAAÇOOOOOOO!
E o professor parava de rir e falava:
- Mormaço? Cacete, vocês andam falando demais com seus avós. "Não parece mais queima"... Ah, os anos 70...
Eu sentava na frente. De maneira alguma para prestar mais atenção. É que as fileiras de cadeiras eram tão apertadas que você mal de mexia quando estava sentado, e tinha que esperar a procissão cadavérica de jovens se mover para poder sair quando tocava o sino. Se sua borracha caía enquanto você estava prensado no seu lugar, imobilizado, tinha que fazer um esforço para esquecê-la; ela nunca mais voltaria. Em algum lugar embaixo daquelas cadeiras, haveria de existir um mundo de coisas perdidas de alunos dos últimos 200 anos. Uma caneta tinteiro, bilhetinhos na segunda pessoa do plural (“Vós sois minha alma, ó Paloma Pandão. Amassar-nos-emos detrás do tronco de ipê?”) e aquele menino pequeno demais, agora um velho barbudo sobrevivendo de Skittles desertores e migalhas de pão, que certo dia desapareceu enquanto seu amigo sondava a cadeira vazia e dizia: “Jimmy?! Jimmy?!!”.
Sentar à frente tinha suas vantagens e desvantagens. A saber, eu não era imune aos respingos de saliva dos professores. Mas era o primeiro a sair daquela atmosfera de bafos estudantis. E ar condicionado. Um ar condicionado monstruoso que fora adquirido ilegalmente de alguma fábrica falida da Alemanha Oriental. “Über Contitionen 7000”, famoso por criar microclimas em cidade inteiras consumindo monstruosidades de energia elétrica, além de exigir o sacrifício de uma virgem a cada solstício.
Não eram tempos fáceis, mas eu fazia um favor a mim mesmo e me tornava o sujeito mais anti-social do mundo. Então olhava com desprezo para toda aquela gente uniformizada do Rio Branco e do Dante. Uniformizada. Inferiores. Céus. Bem, foi esse tipo de pensamento que me levou a ter um, e somente um, amigo durante o decorrer no cursinho.
O nome dele era Yannick (sic). Ele tinha uma cara de inglês – e acho que era mesmo, o que eu fazia questão de ressaltar quando quer que estivéssemos discutindo, usando sua nacionalidade como um argumento final: “É, foda-se, você é inglês”. Ele se indignava e falava algo como “Eu só morei lá quando tinha quatro anos...” – BLÁ BLÁ BLÁ, foda-se, é inglês. E era um garoto adorável. Um dia ia se tornar um grande DJ, como ele mesmo dizia. E passávamos horas me explicando a diferença entre Trance e PsyTrance:
- Cara! Trance é coisa de babaca. Aquela musiquinha de baladinha, saca? Aquele pessoal que nunca foi pra rave, ta ligado – e agitava os braços de um jeito engraçado – PsyTrance é muito mais desenvolvido, cara. Tipo, muito mais elaborado, tem um síncope de baixos com freqüência mais altas...
BLÁ BLÁ BLÁ. Inglês desgraçado. E aí ele enfiava aquele iPod no meu ouvido, mostrando um Trance e um PsyTrance em seguida.
- Pegou a diferença?
Não, caralho, parece um monte de robô tendo ataque epiléptico, eu diria. Mas não dizia. Eu precisava daquele amigo tanto quanto um beduíno precisa de um camelo. E no fim das contas, Yannick não era de todo ruim. Ele acreditava naquele treco que fazia – e fazia bem. As composições dele poderiam estar tocando em alguma rave em Israel, contanto que ele conseguisse se enfiar furtivamente no palco enquanto os organizadores estivessem muito ocupados correndo atrás de galinhas imaginárias e bules de chá com temperamento ruim.
Yannick era certamente melhor do que aquela gente uniformizada. Uniformizada. Anular. Conversação. Abortar. Matar. Abortar. Para essa gente, qualquer coisa era motivo de confraternização. Um dia, descontrolado pelos gases profanos exalados pelo ar condicionado e entorpecido pelas partículas de poeira e serragem que desprendiam-se das cadeiras, tive a pachorra de espirar. Alto. Para quê? Gargalhadas. "Ha-ha-ha, necessidades fisiológicas me descontrolam de tanto rir. E uso uniforme". Comentário engraçadinho do professor, algum insulto da turma símia do fundão e lantanídeos tudo de novo.
Chegou o intervalo e me preparei para levantar quando me vi encoberto de sombras. Eram da turma do fundão.
- Ei, cara, foi um baita de um espirro que você soltou no meio da aula, cara. - disse o do meio.
- Éééé, cara. - conclui o mais distante
- CALABOCA, BERT! CALA ESSA MALDITA BOCA! - estourou o primeiro. Então, com uma cara aprazível, continuou - Eu sou o Earl. Este são o Jason e o Bert. Nós somos do fundão.
Apertei sua mão já me enxergando no banheiro, lavando-a compulsivamente.
- Foi um diabo de um espirro mesmo, cara. Eu sou o carra dos pigarros. O Jason tosse e o Bert boceja alto. Escuta, a gente vai dar um tempo na esquina, sabe? Nos rescostar na parede com o pé apoiado, cruzar os braços e mascar chiclé. Você não quer vir com a gente?
"Hããããããm... N-Ã-Ã-O", pensei em dizer. Mas intimidei-me diante da tatuagem de marinheiro do Jason.
- Olha, caras, eu não quero encrenca, caras. Se eu não passar no vestibular, o meu pai me bate. Na boca. Com uma corrente. Sabe como é? Hehe, eu preciso estudar.
Eles ficaram pasmos. Detiveram-se, coçando as cabeças e olhando uns para os outros. Jason , que estava de braços cruzados, ajeitou-se em suas pernas e olhou para Bert, que arregalou os olhos. O ar foi se adensando e decidi abrir a boca. Abri-a. Mantive-a assim e babei. Babei como se a minha vida dependesse disso.
- Vamos cair fora, caras! Esse cara é da pesada! - disse Earl. E os três fugiram.
Yannick mijava de rir ao meu lado.
- Você fuma crack. - disse.
Fui até o banheiro lavar a mão, o que me tomou os 15 minutos inteiros do intervalo.