quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Curso de proporções reduzidas, a.k.a. Cursinho

A época do Cursinho, também conhecida como o quarto ano de colegial da maioria das escolas particulares, é um limbo. Uma sala de aula cheia de pessoas que não se conhecem, todas carentes por atenção, um último conforto. Também conhecido como um bando de babacas, em suma.

Eu lembro bem da minha época. Estudava pra chuchu (mentira) no colégio e pegava carona até o cursinho, enquanto comia no carro com mais cinco pessoas (infelizmente, verdade). Não esqueço o cheiro tenebroso que saía da tupperware azul marinho de uma colega vegetariana. Parecia um vapor de sarcófago. Abríamos a janela, desesperados, mas os vapores, imagino, eram mais pesados que o ar, e insistiam em ficar no carro, grudar na roupa – outro dia, pensei ter até visto a nuvem fétida de tofu e grãos de soja voar esverdeada para fora da janela do carro, como aquelas almas penadas de filme B.

- Meu Deus, Gabi, o que você trouxe aí dentro?!

- Ai, seu bobinho. Carne é assassinato.

- Carne? Tofu é genocídio! Você sabe as crueldades que eles fazem com a soja para ela ir parar aí no seu tupperware?

Aí a discussão se interrompia porque outra colega, lutando com as lei de Newton - a da gravidade e aquela segundo a qual dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço -, emborcava algo como feijão preto (morno, ó deus, mooorno) na minha perna.

O Anglo Sergipe, meu cursinho, tinha uma filosofia de enfiar quantas pessoas coubessem em uma sala, para aumentar a renda e fazer com que todos prestassem atenção. As cadeiras eram como conchas de madeira que contorciam as lombares pueris para que ninguém sentisse uma gota de conforto. Dormir não era uma opção. Suspeito que eles enfiariam palitinhos para suspender nossas pálpebras, se fosse preciso. Mas não era, porque o cursinho é cheio de gente animadinha.

- BICHA!!!! BICHAAAAA! - gritava a turma do fundão quando o professor entrava.

- VEAAADOOO! VEAAADOOOOO! TAAAANGA! - bradiam ensandecidos, com fúria genuína enquando se erguiam e cravavam as unhas nas cadeiras.

- MOOOOORMAAAAÇOOOOOOO!

E o professor parava de rir e falava:

- Mormaço? Cacete, vocês andam falando demais com seus avós. "Não parece mais queima"... Ah, os anos 70...

Eu sentava na frente. De maneira alguma para prestar mais atenção. É que as fileiras de cadeiras eram tão apertadas que você mal de mexia quando estava sentado, e tinha que esperar a procissão cadavérica de jovens se mover para poder sair quando tocava o sino. Se sua borracha caía enquanto você estava prensado no seu lugar, imobilizado, tinha que fazer um esforço para esquecê-la; ela nunca mais voltaria. Em algum lugar embaixo daquelas cadeiras, haveria de existir um mundo de coisas perdidas de alunos dos últimos 200 anos. Uma caneta tinteiro, bilhetinhos na segunda pessoa do plural (“Vós sois minha alma, ó Paloma Pandão. Amassar-nos-emos detrás do tronco de ipê?”) e aquele menino pequeno demais, agora um velho barbudo sobrevivendo de Skittles desertores e migalhas de pão, que certo dia desapareceu enquanto seu amigo sondava a cadeira vazia e dizia: “Jimmy?! Jimmy?!!”.

Sentar à frente tinha suas vantagens e desvantagens. A saber, eu não era imune aos respingos de saliva dos professores. Mas era o primeiro a sair daquela atmosfera de bafos estudantis. E ar condicionado. Um ar condicionado monstruoso que fora adquirido ilegalmente de alguma fábrica falida da Alemanha Oriental. “Über Contitionen 7000”, famoso por criar microclimas em cidade inteiras consumindo monstruosidades de energia elétrica, além de exigir o sacrifício de uma virgem a cada solstício.

Não eram tempos fáceis, mas eu fazia um favor a mim mesmo e me tornava o sujeito mais anti-social do mundo. Então olhava com desprezo para toda aquela gente uniformizada do Rio Branco e do Dante. Uniformizada. Inferiores. Céus. Bem, foi esse tipo de pensamento que me levou a ter um, e somente um, amigo durante o decorrer no cursinho.

O nome dele era Yannick (sic). Ele tinha uma cara de inglês – e acho que era mesmo, o que eu fazia questão de ressaltar quando quer que estivéssemos discutindo, usando sua nacionalidade como um argumento final: “É, foda-se, você é inglês”. Ele se indignava e falava algo como “Eu só morei lá quando tinha quatro anos...” – BLÁ BLÁ BLÁ, foda-se, é inglês. E era um garoto adorável. Um dia ia se tornar um grande DJ, como ele mesmo dizia. E passávamos horas me explicando a diferença entre Trance e PsyTrance:

- Cara! Trance é coisa de babaca. Aquela musiquinha de baladinha, saca? Aquele pessoal que nunca foi pra rave, ta ligado – e agitava os braços de um jeito engraçado – PsyTrance é muito mais desenvolvido, cara. Tipo, muito mais elaborado, tem um síncope de baixos com freqüência mais altas...

BLÁ BLÁ BLÁ. Inglês desgraçado. E aí ele enfiava aquele iPod no meu ouvido, mostrando um Trance e um PsyTrance em seguida.

- Pegou a diferença?

Não, caralho, parece um monte de robô tendo ataque epiléptico, eu diria. Mas não dizia. Eu precisava daquele amigo tanto quanto um beduíno precisa de um camelo. E no fim das contas, Yannick não era de todo ruim. Ele acreditava naquele treco que fazia – e fazia bem. As composições dele poderiam estar tocando em alguma rave em Israel, contanto que ele conseguisse se enfiar furtivamente no palco enquanto os organizadores estivessem muito ocupados correndo atrás de galinhas imaginárias e bules de chá com temperamento ruim.

Yannick era certamente melhor do que aquela gente uniformizada. Uniformizada. Anular. Conversação. Abortar. Matar. Abortar. Para essa gente, qualquer coisa era motivo de confraternização. Um dia, descontrolado pelos gases profanos exalados pelo ar condicionado e entorpecido pelas partículas de poeira e serragem que desprendiam-se das cadeiras, tive a pachorra de espirar. Alto. Para quê? Gargalhadas. "Ha-ha-ha, necessidades fisiológicas me descontrolam de tanto rir. E uso uniforme". Comentário engraçadinho do professor, algum insulto da turma símia do fundão e lantanídeos tudo de novo.

Chegou o intervalo e me preparei para levantar quando me vi encoberto de sombras. Eram da turma do fundão.

- Ei, cara, foi um baita de um espirro que você soltou no meio da aula, cara. - disse o do meio.

- Éééé, cara. - conclui o mais distante

- CALABOCA, BERT! CALA ESSA MALDITA BOCA! - estourou o primeiro. Então, com uma cara aprazível, continuou - Eu sou o Earl. Este são o Jason e o Bert. Nós somos do fundão.

Apertei sua mão já me enxergando no banheiro, lavando-a compulsivamente.

- Foi um diabo de um espirro mesmo, cara. Eu sou o carra dos pigarros. O Jason tosse e o Bert boceja alto. Escuta, a gente vai dar um tempo na esquina, sabe? Nos rescostar na parede com o pé apoiado, cruzar os braços e mascar chiclé. Você não quer vir com a gente?

"Hããããããm... N-Ã-Ã-O", pensei em dizer. Mas intimidei-me diante da tatuagem de marinheiro do Jason.

- Olha, caras, eu não quero encrenca, caras. Se eu não passar no vestibular, o meu pai me bate. Na boca. Com uma corrente. Sabe como é? Hehe, eu preciso estudar.

Eles ficaram pasmos. Detiveram-se, coçando as cabeças e olhando uns para os outros. Jason , que estava de braços cruzados, ajeitou-se em suas pernas e olhou para Bert, que arregalou os olhos. O ar foi se adensando e decidi abrir a boca. Abri-a. Mantive-a assim e babei. Babei como se a minha vida dependesse disso.

- Vamos cair fora, caras! Esse cara é da pesada! - disse Earl. E os três fugiram.

Yannick mijava de rir ao meu lado.

- Você fuma crack. - disse.

Fui até o banheiro lavar a mão, o que me tomou os 15 minutos inteiros do intervalo.

domingo, 7 de setembro de 2008

Pássa-PássaTempo-Pássa-pássa-pássaTempo-PássaETodo-mundo-estáCorreeeendo

- A gente saía durante o intervalo para matar a última aula. Passávamos no supermercado e comprávamos um pacote de Passatempo recheadas. As recheadas eram engraçadas, porque para tirar do pacote, após uma certa idade, você tinha que contar duas elevações, meter a unha e empurrar a bolacha até a parte de cima da embalagem. Nada de rasgar o plástico todo – Deus, não éramos mais crianças! Fora que ninguém estava com pressa, porque, pensando bem, acho que nem gostávamos daquela bolacha! Olha, era mais pelo ritual! - Ele havia esbugalhado os olhos se explicando esta última parte. Descansou um pouco, se acalmou, e prosseguiu – De qualquer jeito... Um dia o Tuca trouxe um pouco de maconha que ele tinha conseguido com o irmão. Quando digo “conseguido”, quero dizer que ele havia roubado da gaveta do quarto do irmão, o que significava que estava doido para ficar na rua o máximo de tempo que pudesse, porque em sua casa tinha uma bela surra esperando por ele. E até então, por meus dons matemáticos, eu era responsável por tirar as bolachas do pacote. Eu era bom naquilo, Nanda. Bom pra cacete – porque, sabe quando por acaso você conta errado e acaba tirando uma bolacha pela metade? Bem eu era ótimo naquilo, porque corrigia o erro logo na rodada seguinte, sacrificando-me a comer uma metade de bolacha que estava destruindo a harmonia do pacote. Era um sacrifício porque ou a parte não tinha recheio, o que significava ser enganado pela multinacional das Passatempos, ou tinha muito recheio, que era ruim pra cacete.


Nanda estava atenta, tão atenta que começou a ficar desconfortável de tanto olhar Caio nos olhos. Não que estivesse querendo qualquer coisa, mas os parágrafos de Caio eram tão longos que davam tempo para que ela pensasse em como estaria a sua própria cara olhando para ele. E sempre que fazia isso, pensava que devia olhá-lo naturalmente nos olhos; assim, olhava-o nos olhos de um jeito esquisito. Então passou a olhá-lo no queixo.


- Que foi? Tem alguma coisa no meu queixo?


Não não, não era nada, que continuasse.


- Bem, então eu era bom naquilo, compensando as bolachas e tudo... Porra, Nanda, que que foi?!


- Nada, caralho. Pronto, vou olhar pra sua testa.


- Por quê?! Que tem a minha testa?! Espinhas, né? Escuta, eu vou começar com o Racutan semana que vem...


- Porra, Caio, termina logo a história que eu preciso mijar – Disse, olhando o banheiro do outro lado o pátio, que ainda estava ocupado por aquela gorda ingrata da Gabriela.


Ele passou a mão na testa antes de continuar.


- Bom, caralho. Então acontece que a gente fumou e eu fique a cargo das bolachas. E fiquei nervoso, porque estava fumado e achei que não ia dar conta do recado. E todo mundo estava doido por bolachas aquele dia, claro. Mas, que diabos, não sei o que houve que não conseguia mais tirar bolachas inteiras do pacote! Só metades! O pessoal levou um tempo pra reparar, mas quando finalmente se deram conta de que a bolacha estava toda ferrada, ficaram intrigados. E a turma se dividiu – Separou uma ala no ar – O Digo, a Carol e acho que o Luca, que tava com a gente aquele dia sei lá porquê, ficaram colocando a culpa em mim! - Separou a outra ala com outro gesto – E o Churras, a Lau, o Tuca e o Greg tinham certeza que aquele pacote de bolachas tinha vindo em números primos. Tipo uma PG de ímpares, ou algo assim que o Greg tentou explicar, mas não conseguiu. Eu ficava olhando pro pacote de bolachas, tentando encarar a derrota, procurando no pacote algo como “Edição Limitada – Números primos e macaquinhos!”, sei lá, sabe? E aí nunca mais fumei.


Nanda gargalhava.


- Que!? Que foi?! Tem algo no meu queixo, né? Na porra do meu – Nanda! Caralho! Que foi?!


Ela tomou fôlego e disse, engasgando nas risadas:


- Ai, Caio, não acredito! Macaquinhos... Menino! - Passou a mão no seu queixo, que tinha um fiapo de manga, sim, agora ela tinha visto – Ai, Caio. - Ficou séria - Escuta! Não vai contar isso pra mais ninguém, hein? Parar de fumar maconha por causa do pacote de bolachas... Bobo.


- Não, Nanda, era uma conspiração! Um choque de realidade! - Dizia, afoito como Woody Allen– Que nem quando você descobre que Danoninho é queijo suíço!


Silêncio.


- Quêêêê?!


E outro colóquio deu-se. Ao fim da tarde, Nanda escreveria que teve uma conversa das mais profundas com Caio naquela manhã. As pessoas de sempre – sua mãe, sua irmã e sua melhor amiga, somente – leriam o blog e comentariam três vezes cada uma, com pseudônimos diferentes.


Caio iria para a casa a pé, com a certeza de estar apaixonado. Depois imaginaria Nanda vestida de pirata e sonharia com férias, patinetes e outono.