Quando eu era novo, escrevia. E vez ou outra começava algo aparentemente digno, mas que logo tomava um dos dois rumos: ou era abandonado completamente, ou esquecido em um caderno que depois era roubado do carro que eu peguei emprestado quando não tinha carta de motorista sem os meus pais saberem e parei atrás daquele beco do Oswald de Andrade e esqueci de fechar a porta e aí levaram o som e o caderno junto, só de sacanagem, como que para dizerem sem dizerem: perdeu, playboy, os seus começos promissores.
Bom, alguns deles foram recuperados depois de muito suor e da aplicação abusiva de um alicate em gengivas alheias. E agora lhos apresento. Sem orgulho. Só saudades.
Quando você tem quarenta e alguma coisa, o adultério aparece de súbito e te pega desprevenido. Quando você menos espera - enquanto ainda está zombando da remota possibilidade, em ser mais um augusto em terras alexandrinas - vê que suas mãos já estão nas coxas erradas. E aquela jornada aflita no quartinho de crianças no dia das mães abre todo um mundo novo – as paixões pueris são reavivadas mais uma vez. Se há uma maneira de tornar-se jovem mais uma vez, digo, é fodendo esposa alheia.
Aquela história de “aventura” nem sempre é verdade. É sim, admito, parte prima na relação extra-conjugal. Mas é importante registrar que o tesão, daquele jeito velho que todos conhecemos, desempenha papel sumário no processo. O capricho serve ao primeiro passo, nada mais. Daí em diante, quem assume é o tesão. O tesão, e não você. Com efeito, se há alguma vítima disso tudo, são os dois envolvidos, criaturinhas arrebatadas de desejo e cegadas pelo pecado. Ah, o pecado... O que não daria para pecar mais uma vez.
É hora de me apresentar.
Sou Hacob J. Phillipines, filho de Herrman Boskovitch, ex-embaixador da Bósnia e freqüentador assíduo de bordéis de toda sorte e prostíbulos de caminhoneiro. Em minha aldeia, o filho gorducho do prefeito (daquela província asquerosa) apelidou-me, enquanto mantinha o nariz escorrendo com insistência, de Bastardo. Então vocês podem chamar-me de Bastardo, embora não vão falar uma palavra no decorrer do livro. Trata-se de um sermão, não de um diálogo; nos meus bem-aventurados anos de vida, aprendi a lição ímpar de que ouvir é um exercício depravado de indulgência mútua. As melhores lições são dadas em silêncio e aprendidas com dor.
Em 1991 já me encontrava na ascensão pós quarenta anos, galgando postos jurídicos com menos cerimônia que indiferença. Isso é, havia previsto que minhas jogadas de trapaceiro seriam eficientes para assegurar uma aposentadoria precoce; nunca me interessei em trabalhar, e me propus a ganhar dinheiro do jeito fácil. Por isso escolhi a justiça. Desculpem: a Justiça. Não há melhor lugar para chantagem, extorsão, golpes, tapas, conchavos, quadrilhas e obscuridades de toda sorte do que sob o nariz de uma dama cega e louca, que insiste em segurar uma balança babélica e uma espada secular.(...)
Missão: comprar alho sem falar uma palavra de francês.
Era uma noite fria e cansada. A exasperadora volta ao studio de 14 metros quadrados não prometia mais do que um macarrão com molho de tomate enlatado. Ingredientes. Eu já havia me virado com o azeite e o extrato duplo de tomate, uma lata horrível com uma substância entre pastosa e granulosa que, em contato com as mucosas do corpo humano, causa salivação intensa e palpitações. Uma lata desse negócio pode ser diluída em 50 litros de água e se tornar um molho de tomate enjoativo, suficientemente nutritivo para atravessar uma guerra mundial enfiado num porão.
O alho que agora eu e minha namorada procurávamos nos commerces de esquina teria a missão de tornar o nosso molho de tomate mais suportável. Escolhi um em uma rua erma, sem testemunhas.
Aproximei-me do dono do commerce com palavras fáceis. "Excuse moi, monsieur", e então, desprezando verbos e contruções léxicas complicadas, parti direto ao substantivo: "ail". Agora, eu não sei falar "ail". Aliás, nem sei se essa é a palavra para "alho" em francês - neste caso, o meu conhecimento desse vocábulo dependia de uma embalagem de vinagre com alho que eu havia visto no mercado mais cedo.
Suponho que minha pronúncia tenha sido especialmente lamentável. O francês apenas me encarou, como nós também faríamos se um estranho numa noite fria, vestido com uma toca e um casaco puído, checasse os arredores para se assegurar que não havia testemunhas e nos falasse, com uma mão no bolso:
- Senhor, com licença. Ééil.
Puro Lynch. Apavorante até a medula.
Senti o cheiro de adrenalina francesa escapando das axilas de monsieur, seguida da cotovelada profunda que minha namorada aplicou sobre minha quarta costela direita. Portanto, sorri. O francês sorriu também.
Repeti, mudando a tônica e a pronúncia: "ééiyl". Nada. E então, de novo, "euil". Assim sucessivamente, até esgotar todas as possibilidades fonéticas que duas vogais e uma consoante poderiam propor. Imagino que acidentalmente falei apalavra basca para "bócio" e a chinesa para "pai" ou "vaso" (dependendo do contexto), e tenho quase certeza que invoquei um demônio egípcio e pedi uma enguia em inglês.
"Ah, oui!", disse o homem, num estalo, antes de entrar na loja para vasculhar as prateleiras. Imediatamente comecei a discursar para a patroa, massageando minha quarta costela, sobre as precedências do jogo de cintura. Citei Noel:
- Batuque é um privilégio, ninguém aprende samba no colégio!
Prossegui em meu argumento de auto-louvação apoiando os punhos fechados na cintura (minha representação de "jogo de cintura") e rebolando levemente, dizendo em pseudo-francês: "jeau de cintúrr, baby, jeau de cintúrr!". Foi assim que o comerciante flagrou-me, exibindo, entre o indicador e o polegar, um ovo. "Oeuf", dizia o paspalho. "Oeuf?".
Senti meus músculos faciais se contorcendo em perplexidade crônica inevitável. Como minha pronúncia "ail" pode ter sequer chegado perto da palavra "oeuf"?! E como, deus, explicar "alho" para aquele maldito comerciante surdo? Como fazer mímica de um alho? Olhei ao redor procurando qualquer objeto na rua que se assemelhasse a um alho, na esprança de que na vitrine da galeria de arte estaria exposto um quadro com um icônico alho, como a banana de Andy Warhol. Em vão. Desesperado, apelei copiosamente ao "jeau de cintúrr", mas já havia perdido o mojo: acabei gaguejando compulsivamente, e então gritei "vichyssoise!" ao comerciante.
Seu rosto estremeceu em asco, como se tivesse visto em meu gesto o sintoma de uma doença cutânea contagiosa. Um momento depois, iluminou-se de novo. Apontou-me o alho-porró, sorrindo. Vibrei. Saltitando de empolgação, como num jogo de mímica, apontei também o alho-porró soltando monossílabos como "oh, oh, ah!", então juntei os dedos indicadores e os esfreguei, como dizendo "quase, quase isso, chuta de novo". Ele estava contagiado pela mímica. Possesso, olhou meu gesto soltando exclamações de epifania, correu até o interior da loja e trouxe um pedaço de queijo parmesão.
Derrota.
Reparei aí que minha namorada já havia me abandonado, fingindo não me conhecer do outro lado da rua. Fiquei furioso. Alho! Era alho! Alho não é tão difícil. Desesperado por qualquer mímica que remetesse ao bendito Allium sativum, levantei as mãos como se fossem garras e imitei um vampiro. É certo que o palpite de que eu era apenas um sujeito drogado com problemas de dicção retornou colossalmente à mente do francês. Ele desistiu, recuando cautelosamente. Olhei em volta e reparei que uma pequena platéia de franceses se amontoava ao meu redor. Não vi alternativa a não ser prosseguir com a mímica, confirmando a suspeita de surto psicótico. Levantei ainda mais as garras e fui me aproximando dos franceses da platéia. Haaaaarrr.
- Sácre bleu! - ouvi uma mulher dizendo, enquanto empunhava a câmera do celular com uma mão e alcançava o spray de pimenta com a outra.
Cortanto o ar gelado da noite parisiense, ouviu-se de uma rua adjacente uma sirene de polícia. Corri, sentindo nos tendões inferiores toda a deficiência amortecedora de minhas botas Timberland fétidas pelo abuso de meias usadas, até que dobrei o quarteirão.
Não, não. Não é legal, não importa o que aqueles sujeitinhos de camisa agarrada te digam, estufando o peito e discorrendo sobre os benefícios de comer banana e levantar peso. Dói, é humilhante e todos os seus órgãos se perguntam o quê, meu deus, eles fizeram para merecer aquilo.
Escuta só.
Segundo dia de treino, depois de me recuperar de quatro dias de dores de parto espalhados pelo corpo inteiro, e eu estou com de volta naquele lugar chamado academia. Não pertenço. No hay banda. Uma camisa Dry-Fit me agarra como se eu TIVESSE que mostrar meus mamilos para o resto da humanidade, a minha bermuda Hering cinza velha não sente pudores em expor em tons mais escuros a mancha enorme de suor da minha bunda e meus tênis, que eu deixei secando na chuva paulistana, estão deflagrando uma guerra química contra qualquer aparato sensível num raio de 50 km. Eu sou o pária da academia, e ajo como um: meus olhos só saem da folhinha amarela de exercícios para um ponto vago no espaço, entre o teto e o espelho, evitando os olhares de nojo para a poça de suor que deixo em todos os cantos que posso.
140 kg, é o que diz a folha amarela do meu treino. Um aumento de 20 kg desde a primeira vez que treinei - aquela vez que tudo ficou escuro por um momento e eu consegui, no banco do vestiário, escutar as vozes de meus antepassados me chamando de longe enquanto tentava assegurar algum colega de academia que estava bem, ali mesmo, estirado e ofegante("Tô ótimo, é shiatsu, você devia tentar, juro! Tremores, você diz? Que nada. É terapêutico. Meu ouvido está sangrando, você diz? Bobagem, no começo é assim mesmo).
140 kg... Encaro o aparelho de ginástica em questão, um instrumento de tortura medieval remodelado, laqueado com tinta cinza brilhante e apelidado de Leg Press. Coloco a carga exigida pela minha treinadora, que vi exatamente uma vez na vida e é responsável por determinar meus próximos desafios super Bio Ritmo a uma distância segura de minha figura patética. Entro na máquina e me agacho, parando por um minuto na posição primitiva para escutar todos os meus músculos implorarem: "fique assim, só mais um pouquinho, só um pouco, por favor, fique nessa posição para todo o sempre, eu suplico...". Força. Estrelinhas faíscam no canto da minha visão. Dor, dor dor dor. E então, a vitória. A VITÓRIA! 140 kg nas minhas pernas! Eu estou de pé! Eu sou Aquiles! Sou Abbaddon, o destruidor de mundos. Sou Mezcantitlopl, o --
Algo interrompe minha epifania, e não estou falando do grande tendão que estalou algum lugar próximo da minha bunda. Estou falando de uma senhora meio raquítica que está movendo os lábios para mim, mas não a ouço. Tento controlar meus tremores enquanto tiro os fones de ouvido. Tento sorrir também, tento, e só consigo quando vejo o desfibrilador de emergência diretamente atrás da velha raquítica. Oh, velho amigo, você esteve aí o tempo todo...
A senhorinha quer dividir o aparelho comigo. Véia safada... Concordo, e cambaleio para fora do instrumento. A senhorinha toma meu lugar como quem diz "xô, baratinha, vá limpar o suor da bunda" e coloca uma carga de 180 KG. 180 kg! Essa desgraçada come giletes e parafusos de manhã?! Maldição.
Como se não bastasse, na minha vez de usar o aparelho ela fica ali do lado, ignorando solenemente os meus fones de ouvido propositalmente altos, altos para todo mundo escutar Nine Inch Nails e manter distância - ela ignora os fones, dizia, e conversa comigo. Ela conversa enquanto eu levanto o peso do mundo nos ombros, enquanto meus tendões gritam por clemência e aqueles mosquitinhos invisíveis voltam a aparecer no meu campo de visão.
Dor, dor, é tudo dor. Dor e a vontade insana de dizer:
- Olha, dona, eu estou tentando não me CAGAR TODO aqui e você não está ajudando!
Ah, aí ela ia ver. Maldita velhinha. Eu falaria isso, roubaria aquele desfibrilador de emergência e correria como se não houvesse amanhã, as pernas cheias de ácido láctico, tropeçaria escada abaixo para fora daquele god forsaken place, deixando para trás uma velhinha raquítica pasma, deixando para trás todos aqueles pesos e aquela gente fortinha e imbecil e - meu deus, sim, na saída eu daria um belo chute no CU daquele DJ imbecil que coloca aquelas músicas imbecis naquele lugar imbecil e cheio de dor, peso, gente imbecil e... e... e peso e gente imbecil, você está me entendendo? Precisa de mais?!
Mas eu não faço. Eu apenas sorrio e digo: "dureza, é, é dureza mesmo, essas coisas que a gente faz, hi, velhinha, hihi, velhinha assanhada, tira os olhos dos meus mamilos, velhinha". E vou suar em outro lugar.
"Meu Deus, Belford, veja só! Essas criaturas devem construir casas! Descobrimos uma nova civilização!" - Sir Montgomery Monroe, da primeira vez que avistou os cangurus.
"Viemos em paz!" - Sir Montgomery Monroe, aproximando-se de um canguru.
"Você acredita nisso?! Eles dão socos! Literalmente, dão socos! Espere só até eles inventarem a pólvora! Rapaz, estaremos danados!" - Sir Montgomery Monroe ao auxiliar médico da expedição, logo após o seu primeiro contato com os cangurus.
A época do Cursinho, também conhecida como o quarto ano de colegial da maioria das escolas particulares, é um limbo. Uma sala de aula cheia de pessoas que não se conhecem, todas carentes por atenção, um último conforto. Também conhecido como um bando de babacas, em suma.
Eu lembro bem da minha época. Estudava pra chuchu (mentira) no colégio e pegava carona até o cursinho, enquanto comia no carro com mais cinco pessoas (infelizmente, verdade). Não esqueço o cheiro tenebroso que saía da tupperware azul marinho de uma colega vegetariana. Parecia um vapor de sarcófago. Abríamos a janela, desesperados, mas os vapores, imagino, eram mais pesados que o ar, e insistiam em ficar no carro, grudar na roupa – outro dia, pensei ter até visto a nuvem fétida de tofu e grãos de soja voar esverdeada para fora da janela do carro, como aquelas almas penadas de filme B.
- Meu Deus, Gabi, o que você trouxe aí dentro?!
- Ai, seu bobinho. Carne é assassinato.
- Carne? Tofu é genocídio! Você sabe as crueldades que eles fazem com a soja para ela ir parar aí no seu tupperware?
Aí a discussão se interrompia porque outra colega, lutando com as lei de Newton - a da gravidade e aquela segundo a qual dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço -, emborcava algo como feijão preto (morno, ó deus, mooorno) na minha perna.
O Anglo Sergipe, meu cursinho, tinha uma filosofia de enfiar quantas pessoas coubessem em uma sala, para aumentar a renda e fazer com que todos prestassem atenção. As cadeiras eram como conchas de madeira que contorciam as lombares pueris para que ninguém sentisse uma gota de conforto. Dormir não era uma opção. Suspeito que eles enfiariam palitinhos para suspender nossas pálpebras, se fosse preciso. Mas não era, porque o cursinho é cheio de gente animadinha.
- BICHA!!!! BICHAAAAA! - gritava a turma do fundão quando o professor entrava.
- VEAAADOOO! VEAAADOOOOO! TAAAANGA! - bradiam ensandecidos, com fúria genuína enquando se erguiam e cravavam as unhas nas cadeiras.
- MOOOOORMAAAAÇOOOOOOO!
E o professor parava de rir e falava:
- Mormaço? Cacete, vocês andam falando demais com seus avós. "Não parece mais queima"... Ah, os anos 70...
Eu sentava na frente. De maneira alguma para prestar mais atenção. É que as fileiras de cadeiras eram tão apertadas que você mal de mexia quando estava sentado, e tinha que esperar a procissão cadavérica de jovens se mover para poder sair quando tocava o sino. Se sua borracha caía enquanto você estava prensado no seu lugar, imobilizado, tinha que fazer um esforço para esquecê-la; ela nunca mais voltaria. Em algum lugar embaixo daquelas cadeiras, haveria de existir um mundo de coisas perdidas de alunos dos últimos 200 anos. Uma caneta tinteiro, bilhetinhos na segunda pessoa do plural (“Vós sois minha alma, ó Paloma Pandão. Amassar-nos-emos detrás do tronco de ipê?”) e aquele menino pequeno demais, agora um velho barbudo sobrevivendo de Skittles desertores e migalhas de pão, que certo dia desapareceu enquanto seu amigo sondava a cadeira vazia e dizia: “Jimmy?! Jimmy?!!”.
Sentar à frente tinha suas vantagens e desvantagens. A saber, eu não era imune aos respingos de saliva dos professores. Mas era o primeiro a sair daquela atmosfera de bafos estudantis. E ar condicionado. Um ar condicionado monstruoso que fora adquirido ilegalmente de alguma fábrica falida da Alemanha Oriental. “Über Contitionen 7000”, famoso por criar microclimas em cidade inteiras consumindo monstruosidades de energia elétrica, além de exigir o sacrifício de uma virgem a cada solstício.
Não eram tempos fáceis, mas eu fazia um favor a mim mesmo e me tornava o sujeito mais anti-social do mundo. Então olhava com desprezo para toda aquela gente uniformizada do Rio Branco e do Dante. Uniformizada. Inferiores. Céus. Bem, foi esse tipo de pensamento que me levou a ter um, e somente um, amigo durante o decorrer no cursinho.
O nome dele era Yannick (sic). Ele tinha uma cara de inglês – e acho que era mesmo, o que eu fazia questão de ressaltar quando quer que estivéssemos discutindo, usando sua nacionalidade como um argumento final: “É, foda-se, você é inglês”. Ele se indignava e falava algo como “Eu só morei lá quando tinha quatro anos...” – BLÁ BLÁ BLÁ, foda-se, é inglês. E era um garoto adorável. Um dia ia se tornar um grande DJ, como ele mesmo dizia. E passávamos horas me explicando a diferença entre Trance e PsyTrance:
- Cara! Trance é coisa de babaca. Aquela musiquinha de baladinha, saca? Aquele pessoal que nunca foi pra rave, ta ligado – e agitava os braços de um jeito engraçado – PsyTrance é muito mais desenvolvido, cara. Tipo, muito mais elaborado, tem um síncope de baixos com freqüência mais altas...
BLÁ BLÁ BLÁ. Inglês desgraçado. E aí ele enfiava aquele iPod no meu ouvido, mostrando um Trance e um PsyTrance em seguida.
- Pegou a diferença?
Não, caralho, parece um monte de robô tendo ataque epiléptico, eu diria. Mas não dizia. Eu precisava daquele amigo tanto quanto um beduíno precisa de um camelo. E no fim das contas, Yannick não era de todo ruim. Ele acreditava naquele treco que fazia – e fazia bem. As composições dele poderiam estar tocando em alguma rave em Israel, contanto que ele conseguisse se enfiar furtivamente no palco enquanto os organizadores estivessem muito ocupados correndo atrás de galinhas imaginárias e bules de chá com temperamento ruim.
Yannick era certamente melhor do que aquela gente uniformizada. Uniformizada. Anular. Conversação. Abortar. Matar. Abortar. Para essa gente, qualquer coisa era motivo de confraternização. Um dia, descontrolado pelos gases profanos exalados pelo ar condicionado e entorpecido pelas partículas de poeira e serragem que desprendiam-se das cadeiras, tive a pachorra de espirar. Alto. Para quê? Gargalhadas. "Ha-ha-ha, necessidades fisiológicas me descontrolam de tanto rir. E uso uniforme". Comentário engraçadinho do professor, algum insulto da turma símia do fundão e lantanídeos tudo de novo.
Chegou o intervalo e me preparei para levantar quando me vi encoberto de sombras. Eram da turma do fundão.
- Ei, cara, foi um baita de um espirro que você soltou no meio da aula, cara. - disse o do meio.
- Éééé, cara. - conclui o mais distante
- CALABOCA, BERT! CALA ESSA MALDITA BOCA! - estourou o primeiro. Então, com uma cara aprazível, continuou - Eu sou o Earl. Este são o Jason e o Bert. Nós somos do fundão.
Apertei sua mão já me enxergando no banheiro, lavando-a compulsivamente.
- Foi um diabo de um espirro mesmo, cara. Eu sou o carra dos pigarros. O Jason tosse e o Bert boceja alto. Escuta, a gente vai dar um tempo na esquina, sabe? Nos rescostar na parede com o pé apoiado, cruzar os braços e mascar chiclé. Você não quer vir com a gente?
"Hããããããm... N-Ã-Ã-O", pensei em dizer. Mas intimidei-me diante da tatuagem de marinheiro do Jason.
- Olha, caras, eu não quero encrenca, caras. Se eu não passar no vestibular, o meu pai me bate. Na boca. Com uma corrente. Sabe como é? Hehe, eu preciso estudar.
Eles ficaram pasmos. Detiveram-se, coçando as cabeças e olhando uns para os outros. Jason , que estava de braços cruzados, ajeitou-se em suas pernas e olhou para Bert, que arregalou os olhos. O ar foi se adensando e decidi abrir a boca. Abri-a. Mantive-a assim e babei. Babei como se a minha vida dependesse disso.
- Vamos cair fora, caras! Esse cara é da pesada! - disse Earl. E os três fugiram.
Yannick mijava de rir ao meu lado.
- Você fuma crack. - disse.
Fui até o banheiro lavar a mão, o que me tomou os 15 minutos inteiros do intervalo.
- A gente saía durante o intervalo para matar a última aula. Passávamos no supermercado e comprávamos um pacote de Passatempo recheadas. As recheadas eram engraçadas, porque para tirar do pacote, após uma certa idade, você tinha que contar duas elevações, meter a unha e empurrar a bolacha até a parte de cima da embalagem. Nada de rasgar o plástico todo – Deus, não éramos mais crianças! Fora que ninguém estava com pressa, porque, pensando bem, acho que nem gostávamos daquela bolacha! Olha, era mais pelo ritual! - Ele havia esbugalhado os olhos se explicando esta última parte. Descansou um pouco, se acalmou, e prosseguiu – De qualquer jeito... Um dia o Tuca trouxe um pouco de maconha que ele tinha conseguido com o irmão. Quando digo “conseguido”, quero dizer que ele havia roubado da gaveta do quarto do irmão, o que significava que estava doido para ficar na rua o máximo de tempo que pudesse, porque em sua casa tinha uma bela surra esperando por ele. E até então, por meus dons matemáticos, eu era responsável por tirar as bolachas do pacote. Eu era bom naquilo, Nanda. Bom pra cacete – porque, sabe quando por acaso você conta errado e acaba tirando uma bolacha pela metade? Bem eu era ótimo naquilo, porque corrigia o erro logo na rodada seguinte, sacrificando-me a comer uma metade de bolacha que estava destruindo a harmonia do pacote. Era um sacrifício porque ou a parte não tinha recheio, o que significava ser enganado pela multinacional das Passatempos, ou tinha muito recheio, que era ruim pra cacete.
Nanda estava atenta, tão atenta que começou a ficar desconfortável de tanto olhar Caio nos olhos. Não que estivesse querendo qualquer coisa, mas os parágrafos de Caio eram tão longos que davam tempo para que ela pensasse em como estaria a sua própria cara olhando para ele. E sempre que fazia isso, pensava que devia olhá-lo naturalmente nos olhos; assim, olhava-o nos olhos de um jeito esquisito. Então passou a olhá-lo no queixo.
- Que foi? Tem alguma coisa no meu queixo?
Não não, não era nada, que continuasse.
- Bem, então eu era bom naquilo, compensando as bolachas e tudo... Porra, Nanda, que que foi?!
- Nada, caralho. Pronto, vou olhar pra sua testa.
- Por quê?! Que tem a minha testa?! Espinhas, né? Escuta, eu vou começar com o Racutan semana que vem...
- Porra, Caio, termina logo a história que eu preciso mijar – Disse, olhando o banheiro do outro lado o pátio, que ainda estava ocupado por aquela gorda ingrata da Gabriela.
Ele passou a mão na testa antes de continuar.
- Bom, caralho. Então acontece que a gente fumou e eu fique a cargo das bolachas. E fiquei nervoso, porque estava fumado e achei que não ia dar conta do recado. E todo mundo estava doido por bolachas aquele dia, claro. Mas, que diabos, não sei o que houve que não conseguia mais tirar bolachas inteiras do pacote! Só metades! O pessoal levou um tempo pra reparar, mas quando finalmente se deram conta de que a bolacha estava toda ferrada, ficaram intrigados. E a turma se dividiu – Separou uma ala no ar – O Digo, a Carol e acho que o Luca, que tava com a gente aquele dia sei lá porquê, ficaram colocando a culpa em mim! - Separou a outra ala com outro gesto – E o Churras, a Lau, o Tuca e o Greg tinham certeza que aquele pacote de bolachas tinha vindo em números primos. Tipo uma PG de ímpares, ou algo assim que o Greg tentou explicar, mas não conseguiu. Eu ficava olhando pro pacote de bolachas, tentando encarar a derrota, procurando no pacote algo como “Edição Limitada – Números primos e macaquinhos!”, sei lá, sabe? E aí nunca mais fumei.
Nanda gargalhava.
- Que!? Que foi?! Tem algo no meu queixo, né? Na porra do meu – Nanda! Caralho! Que foi?!
Ela tomou fôlego e disse, engasgando nas risadas:
- Ai, Caio, não acredito! Macaquinhos... Menino! - Passou a mão no seu queixo, que tinha um fiapo de manga, sim, agora ela tinha visto – Ai, Caio. - Ficou séria - Escuta! Não vai contar isso pra mais ninguém, hein? Parar de fumar maconha por causa do pacote de bolachas... Bobo.
- Não, Nanda, era uma conspiração! Um choque de realidade! - Dizia, afoito como Woody Allen– Que nem quando você descobre que Danoninho é queijo suíço!
Silêncio.
- Quêêêê?!
E outro colóquio deu-se. Ao fim da tarde, Nanda escreveria que teve uma conversa das mais profundas com Caio naquela manhã. As pessoas de sempre – sua mãe, sua irmã e sua melhor amiga, somente – leriam o blog e comentariam três vezes cada uma, com pseudônimos diferentes.
Caio iria para a casa a pé, com a certeza de estar apaixonado. Depois imaginaria Nanda vestida de pirata e sonharia com férias, patinetes e outono.
Comemorando sozinho o meu trigésimo nono aniversário, o abrir da garrafa de Bourbon à frente da luz de uma única vela me incorreu em um lampejo súbito, e dei-me conta de que não estava comemorando 39 anos, mas 41.
São as pequenas delícias de uma vida solitária. Correndo até o calendário (que guardo ao lado da tesoura de costura, geralmente usada para abrir o leite, e um molho de chaves mortas na gaveta da cozinha), percorri o 6 de outubro desde o meu nascimento, me esforçando para encontrar a minha pessoa em todos os meus aniversários. Concluí que simplesmente me esqueci de comemorar o 21º aniversário – provavelmente em ocasião da Grande Fuga, que me tomava toda a energia e o esforço mental à época. Comemorei 21 anos no ano seguinte quando completava 22. Como se não bastasse, coisa semelhante se repetiu aos meus 30 anos, por ocasião de um relacionamento especialmente ruim que acabou em chantagens e assassinato (à velha moda grega).
Com ninguém ou quase ninguém para lembrar-me de minha idade, fui enganado até que a garrafa de Jack Daniel’s à frente da luz mortífera me trouxe de volta os dois anos de velhice. Quantos segredos não se escondem em uma garrafa de destilado... Naquela mesma noite, o líquido castanho me presenteou com olhos turvos, e a chama da vela me trouxe à lembrança a língua quente de minha segunda namorada.
- Ai! Minha ‘coja’!
Soltando os dentes de pele, que agora tinha um anel vermelho da fileira de dentes, olhei para cima e perguntei:
- Minha o quê?
- Minha ‘coja’! Você mordeu minha ‘coja’.
Naquele mesmo ano eu havia desenvolvido a capacidade de falar palavras em itálico:
- ‘Coja’?! Eu mordi sua coxa. Você tem mais uma chance para acertar a pronúncia da palavra.
- Co... Ah, dane-se. Seu fascista. Minha perna, pronto, você mordeu minha perna. Quem liga?