Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

O Homem que Descobriu a Austrália

"Meu Deus, Belford, veja só! Essas criaturas devem construir casas! Descobrimos uma nova civilização!"
- Sir Montgomery Monroe, da primeira vez que avistou os cangurus.

"Viemos em paz!"
- Sir Montgomery Monroe, aproximando-se de um canguru.

"Você acredita nisso?! Eles dão socos! Literalmente, dão socos! Espere só até eles inventarem a pólvora! Rapaz, estaremos danados!"
- Sir Montgomery Monroe ao auxiliar médico da expedição, logo após o seu primeiro contato com os cangurus.

Quinta-feira, 18 de Setembro de 2008

Curso de proporções reduzidas, a.k.a. Cursinho

A época do Cursinho, também conhecida como o quarto ano de colegial da maioria das escolas particulares, é um limbo. Uma sala de aula cheia de pessoas que não se conhecem, todas carentes por atenção, um último conforto. Também conhecido como um bando de babacas, em suma.

Eu lembro bem da minha época. Estudava pra chuchu (mentira) no colégio e pegava carona até o cursinho, enquanto comia no carro com mais cinco pessoas (infelizmente, verdade). Não esqueço o cheiro tenebroso que saía da tupperware azul marinho de uma colega vegetariana. Parecia um vapor de sarcófago. Abríamos a janela, desesperados, mas os vapores, imagino, eram mais pesados que o ar, e insistiam em ficar no carro, grudar na roupa – outro dia, pensei ter até visto a nuvem fétida de tofu e grãos de soja voar esverdeada para fora da janela do carro, como aquelas almas penadas de filme B.

- Meu Deus, Gabi, o que você trouxe aí dentro?!

- Ai, seu bobinho. Carne é assassinato.

- Carne? Tofu é genocídio! Você sabe as crueldades que eles fazem com a soja para ela ir parar aí no seu tupperware?

Aí a discussão se interrompia porque outra colega, lutando com as lei de Newton - a da gravidade e aquela segundo a qual dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço -, emborcava algo como feijão preto (morno, ó deus, mooorno) na minha perna.

O Anglo Sergipe, meu cursinho, tinha uma filosofia de enfiar quantas pessoas coubessem em uma sala, para aumentar a renda e fazer com que todos prestassem atenção. As cadeiras eram como conchas de madeira que contorciam as lombares pueris para que ninguém sentisse uma gota de conforto. Dormir não era uma opção. Suspeito que eles enfiariam palitinhos para suspender nossas pálpebras, se fosse preciso. Mas não era, porque o cursinho é cheio de gente animadinha.

- BICHA!!!! BICHAAAAA! - gritava a turma do fundão quando o professor entrava.

- VEAAADOOO! VEAAADOOOOO! TAAAANGA! - bradiam ensandecidos, com fúria genuína enquando se erguiam e cravavam as unhas nas cadeiras.

- MOOOOORMAAAAÇOOOOOOO!

E o professor parava de rir e falava:

- Mormaço? Cacete, vocês andam falando demais com seus avós. "Não parece mais queima"... Ah, os anos 70...

Eu sentava na frente. De maneira alguma para prestar mais atenção. É que as fileiras de cadeiras eram tão apertadas que você mal de mexia quando estava sentado, e tinha que esperar a procissão cadavérica de jovens se mover para poder sair quando tocava o sino. Se sua borracha caía enquanto você estava prensado no seu lugar, imobilizado, tinha que fazer um esforço para esquecê-la; ela nunca mais voltaria. Em algum lugar embaixo daquelas cadeiras, haveria de existir um mundo de coisas perdidas de alunos dos últimos 200 anos. Uma caneta tinteiro, bilhetinhos na segunda pessoa do plural (“Vós sois minha alma, ó Paloma Pandão. Amassar-nos-emos detrás do tronco de ipê?”) e aquele menino pequeno demais, agora um velho barbudo sobrevivendo de Skittles desertores e migalhas de pão, que certo dia desapareceu enquanto seu amigo sondava a cadeira vazia e dizia: “Jimmy?! Jimmy?!!”.

Sentar à frente tinha suas vantagens e desvantagens. A saber, eu não era imune aos respingos de saliva dos professores. Mas era o primeiro a sair daquela atmosfera de bafos estudantis. E ar condicionado. Um ar condicionado monstruoso que fora adquirido ilegalmente de alguma fábrica falida da Alemanha Oriental. “Über Contitionen 7000”, famoso por criar microclimas em cidade inteiras consumindo monstruosidades de energia elétrica, além de exigir o sacrifício de uma virgem a cada solstício.

Não eram tempos fáceis, mas eu fazia um favor a mim mesmo e me tornava o sujeito mais anti-social do mundo. Então olhava com desprezo para toda aquela gente uniformizada do Rio Branco e do Dante. Uniformizada. Inferiores. Céus. Bem, foi esse tipo de pensamento que me levou a ter um, e somente um, amigo durante o decorrer no cursinho.

O nome dele era Yannick (sic). Ele tinha uma cara de inglês – e acho que era mesmo, o que eu fazia questão de ressaltar quando quer que estivéssemos discutindo, usando sua nacionalidade como um argumento final: “É, foda-se, você é inglês”. Ele se indignava e falava algo como “Eu só morei lá quando tinha quatro anos...” – BLÁ BLÁ BLÁ, foda-se, é inglês. E era um garoto adorável. Um dia ia se tornar um grande DJ, como ele mesmo dizia. E passávamos horas me explicando a diferença entre Trance e PsyTrance:

- Cara! Trance é coisa de babaca. Aquela musiquinha de baladinha, saca? Aquele pessoal que nunca foi pra rave, ta ligado – e agitava os braços de um jeito engraçado – PsyTrance é muito mais desenvolvido, cara. Tipo, muito mais elaborado, tem um síncope de baixos com freqüência mais altas...

BLÁ BLÁ BLÁ. Inglês desgraçado. E aí ele enfiava aquele iPod no meu ouvido, mostrando um Trance e um PsyTrance em seguida.

- Pegou a diferença?

Não, caralho, parece um monte de robô tendo ataque epiléptico, eu diria. Mas não dizia. Eu precisava daquele amigo tanto quanto um beduíno precisa de um camelo. E no fim das contas, Yannick não era de todo ruim. Ele acreditava naquele treco que fazia – e fazia bem. As composições dele poderiam estar tocando em alguma rave em Israel, contanto que ele conseguisse se enfiar furtivamente no palco enquanto os organizadores estivessem muito ocupados correndo atrás de galinhas imaginárias e bules de chá com temperamento ruim.

Yannick era certamente melhor do que aquela gente uniformizada. Uniformizada. Anular. Conversação. Abortar. Matar. Abortar. Para essa gente, qualquer coisa era motivo de confraternização. Um dia, descontrolado pelos gases profanos exalados pelo ar condicionado e entorpecido pelas partículas de poeira e serragem que desprendiam-se das cadeiras, tive a pachorra de espirar. Alto. Para quê? Gargalhadas. "Ha-ha-ha, necessidades fisiológicas me descontrolam de tanto rir. E uso uniforme". Comentário engraçadinho do professor, algum insulto da turma símia do fundão e lantanídeos tudo de novo.

Chegou o intervalo e me preparei para levantar quando me vi encoberto de sombras. Eram da turma do fundão.

- Ei, cara, foi um baita de um espirro que você soltou no meio da aula, cara. - disse o do meio.

- Éééé, cara. - conclui o mais distante

- CALABOCA, BERT! CALA ESSA MALDITA BOCA! - estourou o primeiro. Então, com uma cara aprazível, continuou - Eu sou o Earl. Este são o Jason e o Bert. Nós somos do fundão.

Apertei sua mão já me enxergando no banheiro, lavando-a compulsivamente.

- Foi um diabo de um espirro mesmo, cara. Eu sou o carra dos pigarros. O Jason tosse e o Bert boceja alto. Escuta, a gente vai dar um tempo na esquina, sabe? Nos rescostar na parede com o pé apoiado, cruzar os braços e mascar chiclé. Você não quer vir com a gente?

"Hããããããm... N-Ã-Ã-O", pensei em dizer. Mas intimidei-me diante da tatuagem de marinheiro do Jason.

- Olha, caras, eu não quero encrenca, caras. Se eu não passar no vestibular, o meu pai me bate. Na boca. Com uma corrente. Sabe como é? Hehe, eu preciso estudar.

Eles ficaram pasmos. Detiveram-se, coçando as cabeças e olhando uns para os outros. Jason , que estava de braços cruzados, ajeitou-se em suas pernas e olhou para Bert, que arregalou os olhos. O ar foi se adensando e decidi abrir a boca. Abri-a. Mantive-a assim e babei. Babei como se a minha vida dependesse disso.

- Vamos cair fora, caras! Esse cara é da pesada! - disse Earl. E os três fugiram.

Yannick mijava de rir ao meu lado.

- Você fuma crack. - disse.

Fui até o banheiro lavar a mão, o que me tomou os 15 minutos inteiros do intervalo.

Domingo, 7 de Setembro de 2008

Pássa-PássaTempo-Pássa-pássa-pássaTempo-PássaETodo-mundo-estáCorreeeendo

- A gente saía durante o intervalo para matar a última aula. Passávamos no supermercado e comprávamos um pacote de Passatempo recheadas. As recheadas eram engraçadas, porque para tirar do pacote, após uma certa idade, você tinha que contar duas elevações, meter a unha e empurrar a bolacha até a parte de cima da embalagem. Nada de rasgar o plástico todo – Deus, não éramos mais crianças! Fora que ninguém estava com pressa, porque, pensando bem, acho que nem gostávamos daquela bolacha! Olha, era mais pelo ritual! - Ele havia esbugalhado os olhos se explicando esta última parte. Descansou um pouco, se acalmou, e prosseguiu – De qualquer jeito... Um dia o Tuca trouxe um pouco de maconha que ele tinha conseguido com o irmão. Quando digo “conseguido”, quero dizer que ele havia roubado da gaveta do quarto do irmão, o que significava que estava doido para ficar na rua o máximo de tempo que pudesse, porque em sua casa tinha uma bela surra esperando por ele. E até então, por meus dons matemáticos, eu era responsável por tirar as bolachas do pacote. Eu era bom naquilo, Nanda. Bom pra cacete – porque, sabe quando por acaso você conta errado e acaba tirando uma bolacha pela metade? Bem eu era ótimo naquilo, porque corrigia o erro logo na rodada seguinte, sacrificando-me a comer uma metade de bolacha que estava destruindo a harmonia do pacote. Era um sacrifício porque ou a parte não tinha recheio, o que significava ser enganado pela multinacional das Passatempos, ou tinha muito recheio, que era ruim pra cacete.


Nanda estava atenta, tão atenta que começou a ficar desconfortável de tanto olhar Caio nos olhos. Não que estivesse querendo qualquer coisa, mas os parágrafos de Caio eram tão longos que davam tempo para que ela pensasse em como estaria a sua própria cara olhando para ele. E sempre que fazia isso, pensava que devia olhá-lo naturalmente nos olhos; assim, olhava-o nos olhos de um jeito esquisito. Então passou a olhá-lo no queixo.


- Que foi? Tem alguma coisa no meu queixo?


Não não, não era nada, que continuasse.


- Bem, então eu era bom naquilo, compensando as bolachas e tudo... Porra, Nanda, que que foi?!


- Nada, caralho. Pronto, vou olhar pra sua testa.


- Por quê?! Que tem a minha testa?! Espinhas, né? Escuta, eu vou começar com o Racutan semana que vem...


- Porra, Caio, termina logo a história que eu preciso mijar – Disse, olhando o banheiro do outro lado o pátio, que ainda estava ocupado por aquela gorda ingrata da Gabriela.


Ele passou a mão na testa antes de continuar.


- Bom, caralho. Então acontece que a gente fumou e eu fique a cargo das bolachas. E fiquei nervoso, porque estava fumado e achei que não ia dar conta do recado. E todo mundo estava doido por bolachas aquele dia, claro. Mas, que diabos, não sei o que houve que não conseguia mais tirar bolachas inteiras do pacote! Só metades! O pessoal levou um tempo pra reparar, mas quando finalmente se deram conta de que a bolacha estava toda ferrada, ficaram intrigados. E a turma se dividiu – Separou uma ala no ar – O Digo, a Carol e acho que o Luca, que tava com a gente aquele dia sei lá porquê, ficaram colocando a culpa em mim! - Separou a outra ala com outro gesto – E o Churras, a Lau, o Tuca e o Greg tinham certeza que aquele pacote de bolachas tinha vindo em números primos. Tipo uma PG de ímpares, ou algo assim que o Greg tentou explicar, mas não conseguiu. Eu ficava olhando pro pacote de bolachas, tentando encarar a derrota, procurando no pacote algo como “Edição Limitada – Números primos e macaquinhos!”, sei lá, sabe? E aí nunca mais fumei.


Nanda gargalhava.


- Que!? Que foi?! Tem algo no meu queixo, né? Na porra do meu – Nanda! Caralho! Que foi?!


Ela tomou fôlego e disse, engasgando nas risadas:


- Ai, Caio, não acredito! Macaquinhos... Menino! - Passou a mão no seu queixo, que tinha um fiapo de manga, sim, agora ela tinha visto – Ai, Caio. - Ficou séria - Escuta! Não vai contar isso pra mais ninguém, hein? Parar de fumar maconha por causa do pacote de bolachas... Bobo.


- Não, Nanda, era uma conspiração! Um choque de realidade! - Dizia, afoito como Woody Allen– Que nem quando você descobre que Danoninho é queijo suíço!


Silêncio.


- Quêêêê?!


E outro colóquio deu-se. Ao fim da tarde, Nanda escreveria que teve uma conversa das mais profundas com Caio naquela manhã. As pessoas de sempre – sua mãe, sua irmã e sua melhor amiga, somente – leriam o blog e comentariam três vezes cada uma, com pseudônimos diferentes.


Caio iria para a casa a pé, com a certeza de estar apaixonado. Depois imaginaria Nanda vestida de pirata e sonharia com férias, patinetes e outono.

Terça-feira, 19 de Agosto de 2008

Do livro de memórias de Sinclair

Comemorando sozinho o meu trigésimo nono aniversário, o abrir da garrafa de Bourbon à frente da luz de uma única vela me incorreu em um lampejo súbito, e dei-me conta de que não estava comemorando 39 anos, mas 41.

São as pequenas delícias de uma vida solitária. Correndo até o calendário (que guardo ao lado da tesoura de costura, geralmente usada para abrir o leite, e um molho de chaves mortas na gaveta da cozinha), percorri o 6 de outubro desde o meu nascimento, me esforçando para encontrar a minha pessoa em todos os meus aniversários. Concluí que simplesmente me esqueci de comemorar o 21º aniversário – provavelmente em ocasião da Grande Fuga, que me tomava toda a energia e o esforço mental à época. Comemorei 21 anos no ano seguinte quando completava 22. Como se não bastasse, coisa semelhante se repetiu aos meus 30 anos, por ocasião de um relacionamento especialmente ruim que acabou em chantagens e assassinato (à velha moda grega).

Com ninguém ou quase ninguém para lembrar-me de minha idade, fui enganado até que a garrafa de Jack Daniel’s à frente da luz mortífera me trouxe de volta os dois anos de velhice. Quantos segredos não se escondem em uma garrafa de destilado... Naquela mesma noite, o líquido castanho me presenteou com olhos turvos, e a chama da vela me trouxe à lembrança a língua quente de minha segunda namorada.

- Ai! Minha ‘coja’!

Soltando os dentes de pele, que agora tinha um anel vermelho da fileira de dentes, olhei para cima e perguntei:

- Minha o quê?

- Minha ‘coja’! Você mordeu minha ‘coja’.

Naquele mesmo ano eu havia desenvolvido a capacidade de falar palavras em itálico:

- ‘Coja’?! Eu mordi sua coxa. Você tem mais uma chance para acertar a pronúncia da palavra.

- Co... Ah, dane-se. Seu fascista. Minha perna, pronto, você mordeu minha perna. Quem liga?

Eu ligava. Levantei.

- Vou comprar cigarros.

Não fumava. E não voltei.

Sexta-feira, 8 de Agosto de 2008

A Repórter Televisiva de TPM

Vai à rua fazer o que faz de melhor. Aborda um casal jovem, ela negra e bonita, ele branco e vermelho como um russo estapeado, cara de menino, sem muito saber o que fazer.

- São só umas perguntinhas fáceis, não demora nada – sorri a âncora.

O casalzinho sorri, crianças prestes a ganharem um punhado de balas Iogurte 100, que são gostosas até que você come uma dúzia delas e repara que o sabor é idêntico ao cheiro de um saco de lixo vazio. Opa, devaneio - e não existo, narrador invisível que sou. Volto ao casal, que sorri, dizia. A repórter arruma o cabelo, dá o sinal para o câmera. Nos segundos antes da fita gravar, parece irritada, ou quem está prestes a chorar, mas sorri como JK em cima de um fusca. Começam as perguntas, dirigidas a ambos:

- Você acredita que o brasileiro é preconceituoso?

- Não, de jeito nenhum. Isso é coisa de americano – responde ela.

- É, é, concordo, concordo. – fala o menino, meio olhando para o chão, se avermelhando como se tivessem estapeado mais ainda o russo da comparação do primeiro parágrafo.

- Mas vocês dois nunca receberam um olhar estranho por serem de raças diferentes?

- Ah, às vezes tem, mas não dá pra saber se é porque ele parece um russo estapeado, se é porque eu sou bonita ou qualquer coisa assim. Não dá. Racismo é coisa de americano. – ela de novo.

- É, concordo, concordo. – a mesma pantomima infeliz.

Os argutos telespectadores notariam que neste momento nossa repórter encara o menino com a boca semi-aberta com uma cara de asco muito mal disfarçada. Permanece assim por alguns segundos, encarando o menino nos olhos, a boca pendendo, até que desperta de repente e solta a terceira pergunta:

- Vocês estão juntos há quanto tempo?

- Dois anos e meio agora. Fazemos aniversário hoje! – anima a menina, olhando para a câmera de frente.

- É, dois anos e meio sim. – diz aquele menino, de novo com o jeitinho de olhar pro chão e ficar vermelho.

“O-ou”, diz o câmera. As sobrancelhas de nossa repórter se envergam como bailarinas e ela dirige-se somente ao menino, apontando o microfone como se quisesse mostrá-lo à vítima antes de enfiá-lo goela abaixo:

- E vem cá, você é cachorrinho, é? É cachorrinho que você é?

Coitado, ele não entende, e sorri esperançoso para a repórter. Mas não dura muito:

- Ela bate em você é? Você só concorda com ela, não diz nada não? – ela já estourou, os filamentos pipocaram, descabela-se, furiosa, mas ainda fala no microfone – Sabe, você devia arruma uma camiseta escrito “pergunte a ela” e andar do ladinho dela assim, ó. Aí se alguém perguntasse alguma coisa você só apontava a camiseta, sabe? “Lê aqui, ó”! Trouxa! Você é um trouxa mesmo, seu trouxa! Eu não agüento mais essa merda. Eu quero um homem de verdade! Alguém tem bolas nesse lugar?! – grita para toda a Avenida Paulista – Alguém tem bolas?! Ninguém?! E sabia... E você! – olha para a menina, que já cravara as unhas no braço de menino, tendo ele feito o mesmo com sua mão livre, os dois encolhidos – dois anos e meio com esse... Esse... Esse menino?! Me-ni-no, é o que você é – a ele, o dedo a centímetros do rostinho – Vai chorar, neném?! Quer chorar, menininho?! VAI CHORAR?!

Então ela pára, de repente, e seu rosto se entristece. Uma nuvem encolhe suas feições, ela desesperada de tristeza, chora alto:

- Eu estou tão sozinha... E eles, eles tem um ao outro. Minha mãe, ela não me dava o peito, só a mamadeira. Eu sou uma vaca frígida. Ninguém gosta de mim, e esse menino, ele... Ele é só um menino, eu sou uma monstra – soluça - Eu não quero mais, Vieira, sai pra lá com essa câme-- cai o áudio porque ela finalmente larga o microfone e sai cambaleando de tristeza.

A câmera filma ela por um tempo, depois volta ao casal boquiaberto, volta à repórter, que já chama um táxi, volta ao casal boquiaberto. Passam séculos e bolas de feno. Aí o menino se recupera e pergunta ao câmera:

- Vai ao ar quando?

Domingo, 20 de Julho de 2008

.Entre Parêntesis.

Um homem vai viver dentro de sua cabeça. As memórias são sua única moral. Eternidade? É uma opção. Lá dentro, há apenas ele e seus maiores desejos. O prazer só não é constante quando não é prazer. Ele sente seu corpo com as mãos, vê o dial de um relógio com nitidez, as luzes se acendem e se apagam – ele quer assim, e assim é. O mais real que ele pode conceber – o que ele mais deseja é que seja real. Tão real quanto for preciso. Ele ama sua mulher, e ela está lá, parece tão plena quanto ele, tão íntegra e tão humana. Mas é? Como podemos ter certeza? Como ele pode saber? Perguntando?

– Sou.

Mas está dizendo isso porque é?

– Só estou dizendo que sou.

É um apartamento como ele sempre quis – um loft, melhor dizendo, com uma janela do chão ao teto, olhando para a baía. O sol apenas aparece em suas melhores cores. Eles estão de pé. Estou na minha cabeça. Tenho tudo que desejo. Mas e agora?

– E agora? – pergunta à mulher.

Ela olha o dial do relógio. Volta–se para ele e diz:

– Faltam cinco minutos para a sua crise de realidade. Ela irá durar outros cinco minutos. Quer que eu feche as cortinas e tire suas roupas?

– Sim, querida, como quiser.

– Como quiser.

Cortinas fechadas, nus. Esperam. Então ele começa a sentir frio, e a perturbação nasce. Incha. Esta vai ser das grandes. Ela inabalável, nua, linda:

– Ai, ai. Quer que eu te guie, não é?

Ele não reage, está calado para não chorar.

– Ajudaria se você não enxergasse o relógio? – diz ela, olhando ela própria os traços do dial, que agora dançam, sem nunca definirem números. Ele solta um risinho amargo.

– Ajudaria se eu entrasse por aquela porta agora mesmo? – pergunta, voltando–se para a porta, de onde ela mesmo surge, vestida, parecendo preocupada.

– Querido! O que você está fazendo aí no chão, nu? Não está com frio?!

Ele está tremendo. Sente a mão da mulher tocando-lhe o braço e o levantando. Ela pára de estar preocupada, sorrindo com malícia.

– Que bobagem, querido, que bobagem. Quando é que você vai aprender?

Os dois estão em pé, de novo, e vestidos. Os números do dial estão claros agora – dez minutos depois. Ele limpa as lágrimas, espreguiça–se. Passou.

– Algum dia estarei fora da minha cabeça? – pergunta ele.

Sua mulher, então, declara:

– Se há alguma coisa que eu possa concluir disso tudo, é que precisamos desesperadamente trepar.

Sexta-feira, 18 de Julho de 2008

Da manhã

Vocês conhecem a cena. Acorda-se, lava-se a face, enverga-se uma roupa fresca (há quem tome banho), e dá-lhe mesa do café. Ainda esfregando os olhos, nos deparamos com um Nescau Cereal que é Mais que Radical, um Crunch que Detona a Galera e um Toddy da Vaca Louca que Ouve MP3 e Anda de Skate e Agita a Parada. eu me sinto culpado - acho que o meu café da manhã esperava que eu aparecesse gritanto e dando um golpe de capoeira para sentar à mesa.

Mas pensa bem... Cacete! Qual é o problema com esses publicitários?! É alimento, por deus! Comer não é uma experiência radical! Experimente pular de pára-quedas mandando uma taça de sorvete, ou mergulhar tomando Gatorade, ou surfar chupando picolé Rochinha. Dor de barriga, na melhor das hipóteses. Os doutores olhando uma radiografia de um pirulito atravessado num esôfago: "Eles nunca aprendem...".

Nem o mais infantil dos infantos se diverte vendo aqueles floquinhos de ração do tigre Tony amolecendo numa poça de leite. "Mas isto vai me dar a força do tigre?", pensam, cutucando a massa amorfa com a colher. E aí inventam o Nescau Power, que tem ainda mais chocolate, o Snow Flakes, que tem ainda mais açúcar, ou a Pepsi X, que é uma espécie de redução de refrigerante, um xaropão concentrado pra quem vai "pirar na balada". Imagina um festa que só serve esse treco, tigelas de Sucrilhos Banana e bolacha Passatempo. É questão de alguém esquentar o leitinho um pouco acima da conta e todo mundo dorme pela sala.

Publicitários... Aposto que se você tiver a chance de assistir um grupo de publicitários tomando café, vai dar de cara com uns quatro marmanjos pirando no açúcar. Um deles em cima da cadeira, espremendo o tubo Irado de leite moça com toda a força em cima da banana com Neston:

- YÉÉÉÉÉÉS! AÇÇÇÇÇÇUCAR!

O outro arrasa o ceral com Nutella sem mastigar, com os fones de ouvido no máximo, o terceiro lançando aviõezinhos de papel, andando de skate e tomando Nescau ao mesmo tempo, enquanto o quarto já está inconsciente depois da overdose de Farinha Láctea com Chantily. Ele ergue o bracinho, a pança escapando da camiseta:

- Radical, caras...

E vomita.