sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Minuto Paulistano

Noite, quase madrugada de dia de semana. Ele pára no farol. Sozinho, não passa mais de um segundo, e um carro pára à direita do seu. Motoristas trocam olhares.

Mas surpresa. Ela, no outro carro, sorri. Imediato, ele repara que também já sorria. Embaraçados, desviam - olham os dois pro nada. Depois se olham de novo – é incrível, sorriem! Por um segundo, perguntam-se sozinhos se já se conheciam. Mas não; não, é mais que isso, é muito mais que isso, tanto que pouco importa. Poderiam muito bem já se conhecer, estão dispostos em igual. Crêem os dois que estão apaixonados. O farol continua vermelho, como ambos.

Indecisão. Então ela abre a janela, corajosa. Ele estica o seu braço e abre sua janela de passageiro. Quase riem, bobos. Ela olha em volta, procurando algo para falar. Algo, agora:

- Olha a Lua!

Ele olha. E ri mais, alto. Está linda. Tudo aquilo, será possível?! Ele volta a olhar pra ela, os dois sorrindo como crianças numa piscina. Ele sabe que pode ir mais longe, sabe onde os dois estão:

- Eu costumo esquecer aniversários!

Ela gargalha:

- Odeio que lembrem o meu!

- Eu tenho só dezenove anos!

- Eu tenho só vinte-e-seis!

Agora quem ri é ele:

- Eu moro com meus pais!

- Eu moro sozinha! É perfeito!

Ele estremece, a emoção tomando tudo, suas mãos, o rosto inteiro rubro. Quanta alegria! Ela é tudo! Os cabelos curtinhos, o rosto pequeno, confiante, confiável – aquelas sobrancelhas! Corajosa, a engraçada. – O farol, de repente! – Num impulso, com tudo a perder, ele puxa o freio de mão, salta do seu carro e vai até a janela dela. Atira seu próprio celular no seu colo – saia longa, ele adora – e diz, já correndo para seu carro:

- Amanhã te ligo!

Paralisada, ela sorri e deixa o queixo cair. Ofega, em transe, rindo e soltando ar a um só tempo, mal se contendo.

Ele, gritando, o farol transversal já amarelo:

- Melhor desligar o despertador do meu celular! Está para as oito horas!

Buzinam atrás. Rindo, ela engata a marcha. Pontua:

- Acho que nem vou dormir hoje!

Partem os dois, prontos.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Alegoria da Esperança, ou Perdão

Três meninos, em fila, tentam passar pelo vigia. Este, um homem alto de cem olhos, conserva selada a passagem para o sétimo abismo. Gelado:

­- Alto! Que trazes para esta paragem?

O primeiro menino se ajoelha para responder:

- Trago Solidão.

O guardião se dobra sobre a criança, seu corpo comprido descrevendo um arco obsceno no ar, os olhos, alvos, bem abertos.

Passe – faz o guardião, com desdém.

Passa.

- Alto! Que trazes para esta paragem?

Também ajoelhando, o segundo lhe responde:

- Trago a Culpa, meu senhor. E um punhado de Miséria que o Infortúnio me pôs nos bolsos.

O guardião, arqueando o corpo agudo tão gravemente, seus cem olhos parecem mais desconfiados que o habitual.

- Mostre – ordena, ríspido.

A mãozinha estende-se, e nela vê-se uma água negra de miséria contorcendo-se. Como sangue. O guardião sorri.

- Perfeito. Ótimas referências, ótima criação. Sinto que será muito bem vindo aqui. Ocorre-me lembrar-te que o Infortúnio não é senão ti mesmo, assim como a Culpa é toda tua. Pode passar.

O terceiro menino se aproxima, o rosto frio de lágrimas.

- Pobre criatura – canta o guardião, zombeteiro – Deixe-me adivinhar! Trazes Tristeza! Mas ora, não vai ajoelhar-se? Trazes arrogância também? – cruza os braços com desprezo.

Ardida pelos soluços, a voz do menino é uma vergonha:

- Não me ajoelho, pois isso seria Resignação. Não trago Resignação. Trago estas flores, meu senhor. E peço Perdão.

O vigia dá um salto, incrédulo. Seus cem olhos piscam, agitam-se nas órbitas desconfortáveis, desgovernados. Com uma mão no punhal, aponta para um papel que se insinua entre as flores que o menino carrega, ou para o menino mesmo:

- Isso... Isso é Esperança! – grita, num misto de pavor e ira– Trazes Esperança! Fora daqui! Antes que eu rasgue tuas vísceras e me faça outro par de botas! Fora! .

O rosto do menino se crispa de desespero, mais lágrimas molham suas bochechas. Geme, e as flores enfraquecem para quase morrerem. Crava as unhas no arranjo de papel celofane e crepom com dor, mas não tarda a soltar um sopro de ar num exaspero que lhe sai nuvem vermelha pelas narinas. Respira fundo. Já estivera em todas as paragens, e não topara, nela ou em caminho algum, nem sombra de Cordialidade. Os vigias que não o ameaçavam diziam que a Esperança não aparecia muito por ali, que pouco valiam como valor de troca. “As flores”, diziam eles, “não sobreviverão depois da meia-noite, quando os lobos do Desespero farejarem a quilômetros de distância qualquer aroma de vida”. Não passasse um dos portões, não se ajoelhasse, seria o menino também devorado.

Os cem olhos lívidos do guardião têm as pupilas em tamanhos diferentes. Inquietos, têm sem um tremor de espasmos a sede de morte.

O menino volta à trilha das planícies desconsoladas. A grama exala Aflição, tragada às pressas por abelhas inquietas que constroem fogueiras onde queimarão seus próprios corpos madrugada adentro. Os tatus, antes exímios trabalhadores, já deixaram de cavar tocas; agora cavam covas. Serpentes cegas sangram peçonha, chocando-se umas às outras em celebrações assombrosas de presas e surtos, duelos de morte. Ninguém vê o menino. Todos têm pressa, os uivos já anunciam a retirada do sol.

Abandonado, de novo. Caminha.

Penetrando um mata escura de árvores monumentais de Estoicismo e Indiferença, o menino já busca um lugar seguro para esconder suas flores. Pensa, “Se hei de morrer, como vamos todos, ao menos deve viver a Esperança”. Seus pés doem, estão inchados como os de uma criada. Um corcel cheio de chagas passa trotando por perto – é o fantasma da Punição que o monta. Um cavaleiro sem cabeça que surra o cavalo impiedosamente. O menino estremece. O mundo anda tão escuro sem Ela.

“Se encobre de trevas. Há falta em todo lugar. Uma Saudade velha, sádica, tece a vida de todos com maus agouros e desgosto. Todos vítimas do próprio mundo que habitam. Um erro, e uma eternidade de sofrimento. Será que todos os fins são assim desolados? As únicas flores que vi são estas minhas. Mas serão elas um novo começo? Ou perdê-las-ei quando os lobos me alcançarem?”.

Passa Horas a caminhar, mas as Horas não existem mais. Só existe ausência, vazio, lacunas de espaço sem nome. Não venta. E as trevas já começaram a trepar na abóbada.

O menino arrasta os pés sobre a relva insolente até a exaustão o tomar por completo. Machucado, infeliz. Estúpido, recomeça seu pranto. Pouco mais e perderá as flores. Jogará o vaso para o alto, gritará. Seria assim. Mas avista, lapidado no tronco de uma árvore, uma passagem pequena onde se divisa os primeiros degraus de uma escada, que parece subir pelo interior da madeira.

Por dezoito andares o menino sobre, encontrando no fim das escadas uma porta aberta para um espaço generoso. Dali brota o inconfundível perfume do Amor. Mas a casa parece abandonada. “Mortos, certamente. Ficaria surpreso de encontrar os donos deste Amor ainda vivos. Os lobos e os Erros não poupam nada”.

Silêncio na casa. As flores, quase murchas, expõe óbvias as conseqüências da morte. O fim da Esperança. O menino senta-se, perdido. Já é quase um homenzinho. A pouca luz do ocaso enfrenta as frestas da veneziana na janela. Os uivos, o abandono de novo. Silêncio na casa.

Perde-se. Quase adormece, vencido. Mas.

Um barulho! Em um dos quartos ali, algo suspira. O ar enche-se de uma cor azul-clara, uma essência de recém nascido - satura-se de Inocência, as flores respiram aliviadas e se empertigam com vigor. Em um salto, o coraçãozinho sacudindo o peito magro, o menino ergue-se. Atravessa a sala com pressa, mas se detém com respeito frente à porta. Devagar, abre e pisa o aposento. Aproxima-se do que, à meia-luz, sugere um leito. Formas pequenas, muitas delas, sacodem-se sob as cobertas. Puxa os lençóis de neve, descobrindo uma ninhada fresca e saudável de boas Lembranças. Lembranças em uma cama de solteiro, de Amor de menino. O cheiro o acorda. Felicidade, enfim. A Esperança se alimenta.

Ele se põe de joelho, devoto.

Deixa o vaso ao pé da cama, onde as flores se nutrirão de Inocência e espalharão um jardim. Nascimento. Pleno. Certo de que as flores e os meninos cresceriam.

Sem dúvidas, sem amargor, certo de que em breve haveria um recomeço, mais belo, livre de dores e renovado de Paixão, o menino vai embora para ser devorado pelos lobos.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Termo de Compromisso

Nasceu. Mas não é meu.

Não me responsabilizo. A freqüência de postagens seguirá um princípio de moral estabelecido à bofetadas e cintadas por meu pai nascido em Esparta.

Sobre o Piauí:
Começo dizendo que a revista Piauí não se lê. Se estuda. Sem marca-texto, nada se apreende.
Sobre o estado, sugiro que perguntem aos holandeses.

Encontrei um controle remoto de alarme de carro no chão. Até chegar em casa, fiquei apertando o botão a cada passo, na esperança de abrir um carro desavisado. Ri comigo mesmo da possiblidade de abrir um portão de uma casa.

Como este post de debutação me parece tão precário, e corro risco de deixar meus fãs (que até agora, somados, dão uma fração) insatisfeitos, termino com um emoticon, que hoje em dia faz sucesso entre idosos e japonesas assanhadas, exatamente o tipo de mercado em que estou tentado me inserir:

: D