terça-feira, 14 de setembro de 2010

Começos promissores

Quando eu era novo, escrevia. E vez ou outra começava algo aparentemente digno, mas que logo tomava um dos dois rumos: ou era abandonado completamente, ou esquecido em um caderno que depois era roubado do carro que eu peguei emprestado quando não tinha carta de motorista sem os meus pais saberem e parei atrás daquele beco do Oswald de Andrade e esqueci de fechar a porta e aí levaram o som e o caderno junto, só de sacanagem, como que para dizerem sem dizerem: perdeu, playboy, os seus começos promissores.

Bom, alguns deles foram recuperados depois de muito suor e da aplicação abusiva de um alicate em gengivas alheias. E agora lhos apresento. Sem orgulho. Só saudades.

Quando você tem quarenta e alguma coisa, o adultério aparece de súbito e te pega desprevenido. Quando você menos espera - enquanto ainda está zombando da remota possibilidade, em ser mais um augusto em terras alexandrinas - vê que suas mãos já estão nas coxas erradas. E aquela jornada aflita no quartinho de crianças no dia das mães abre todo um mundo novo – as paixões pueris são reavivadas mais uma vez. Se há uma maneira de tornar-se jovem mais uma vez, digo, é fodendo esposa alheia.

Aquela história de “aventura” nem sempre é verdade. É sim, admito, parte prima na relação extra-conjugal. Mas é importante registrar que o tesão, daquele jeito velho que todos conhecemos, desempenha papel sumário no processo. O capricho serve ao primeiro passo, nada mais. Daí em diante, quem assume é o tesão. O tesão, e não você. Com efeito, se há alguma vítima disso tudo, são os dois envolvidos, criaturinhas arrebatadas de desejo e cegadas pelo pecado. Ah, o pecado... O que não daria para pecar mais uma vez.


É hora de me apresentar.

Sou Hacob J. Phillipines, filho de Herrman Boskovitch, ex-embaixador da Bósnia e freqüentador assíduo de bordéis de toda sorte e prostíbulos de caminhoneiro. Em minha aldeia, o filho gorducho do prefeito (daquela província asquerosa) apelidou-me, enquanto mantinha o nariz escorrendo com insistência, de Bastardo. Então vocês podem chamar-me de Bastardo, embora não vão falar uma palavra no decorrer do livro. Trata-se de um sermão, não de um diálogo; nos meus bem-aventurados anos de vida, aprendi a lição ímpar de que ouvir é um exercício depravado de indulgência mútua. As melhores lições são dadas em silêncio e aprendidas com dor.


Em 1991 já me encontrava na ascensão pós quarenta anos, galgando postos jurídicos com menos cerimônia que indiferença. Isso é, havia previsto que minhas jogadas de trapaceiro seriam eficientes para assegurar uma aposentadoria precoce; nunca me interessei em trabalhar, e me propus a ganhar dinheiro do jeito fácil. Por isso escolhi a justiça. Desculpem: a Justiça. Não há melhor lugar para chantagem, extorsão, golpes, tapas, conchavos, quadrilhas e obscuridades de toda sorte do que sob o nariz de uma dama cega e louca, que insiste em segurar uma balança babélica e uma espada secular.(...)

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Memórias de Paris

Paris.

Missão: comprar alho sem falar uma palavra de francês.

Era uma noite fria e cansada. A exasperadora volta ao studio de 14 metros quadrados não prometia mais do que um macarrão com molho de tomate enlatado. Ingredientes. Eu já havia me virado com o azeite e o extrato duplo de tomate, uma lata horrível com uma substância entre pastosa e granulosa que, em contato com as mucosas do corpo humano, causa salivação intensa e palpitações. Uma lata desse negócio pode ser diluída em 50 litros de água e se tornar um molho de tomate enjoativo, suficientemente nutritivo para atravessar uma guerra mundial enfiado num porão.

O alho que agora eu e minha namorada procurávamos nos commerces de esquina teria a missão de tornar o nosso molho de tomate mais suportável. Escolhi um em uma rua erma, sem testemunhas.

Aproximei-me do dono do commerce com palavras fáceis. "Excuse moi, monsieur", e então, desprezando verbos e contruções léxicas complicadas, parti direto ao substantivo: "ail". Agora, eu não sei falar "ail". Aliás, nem sei se essa é a palavra para "alho" em francês - neste caso, o meu conhecimento desse vocábulo dependia de uma embalagem de vinagre com alho que eu havia visto no mercado mais cedo.

Suponho que minha pronúncia tenha sido especialmente lamentável. O francês apenas me encarou, como nós também faríamos se um estranho numa noite fria, vestido com uma toca e um casaco puído, checasse os arredores para se assegurar que não havia testemunhas e nos falasse, com uma mão no bolso:

- Senhor, com licença. Ééil.

Puro Lynch. Apavorante até a medula.

Senti o cheiro de adrenalina francesa escapando das axilas de monsieur, seguida da cotovelada profunda que minha namorada aplicou sobre minha quarta costela direita. Portanto, sorri. O francês sorriu também.

Repeti, mudando a tônica e a pronúncia: "ééiyl". Nada. E então, de novo, "euil". Assim sucessivamente, até esgotar todas as possibilidades fonéticas que duas vogais e uma consoante poderiam propor. Imagino que acidentalmente falei apalavra basca para "bócio" e a chinesa para "pai" ou "vaso" (dependendo do contexto), e tenho quase certeza que invoquei um demônio egípcio e pedi uma enguia em inglês.

"Ah, oui!", disse o homem, num estalo, antes de entrar na loja para vasculhar as prateleiras. Imediatamente comecei a discursar para a patroa, massageando minha quarta costela, sobre as precedências do jogo de cintura. Citei Noel:

- Batuque é um privilégio, ninguém aprende samba no colégio!

Prossegui em meu argumento de auto-louvação apoiando os punhos fechados na cintura (minha representação de "jogo de cintura") e rebolando levemente, dizendo em pseudo-francês: "jeau de cintúrr, baby, jeau de cintúrr!". Foi assim que o comerciante flagrou-me, exibindo, entre o indicador e o polegar, um ovo. "Oeuf", dizia o paspalho. "Oeuf?".

Senti meus músculos faciais se contorcendo em perplexidade crônica inevitável. Como minha pronúncia "ail" pode ter sequer chegado perto da palavra "oeuf"?! E como, deus, explicar "alho" para aquele maldito comerciante surdo? Como fazer mímica de um alho? Olhei ao redor procurando qualquer objeto na rua que se assemelhasse a um alho, na esprança de que na vitrine da galeria de arte estaria exposto um quadro com um icônico alho, como a banana de Andy Warhol. Em vão. Desesperado, apelei copiosamente ao "jeau de cintúrr", mas já havia perdido o mojo: acabei gaguejando compulsivamente, e então gritei "vichyssoise!" ao comerciante.

Seu rosto estremeceu em asco, como se tivesse visto em meu gesto o sintoma de uma doença cutânea contagiosa. Um momento depois, iluminou-se de novo. Apontou-me o alho-porró, sorrindo. Vibrei. Saltitando de empolgação, como num jogo de mímica, apontei também o alho-porró soltando monossílabos como "oh, oh, ah!", então juntei os dedos indicadores e os esfreguei, como dizendo "quase, quase isso, chuta de novo". Ele estava contagiado pela mímica. Possesso, olhou meu gesto soltando exclamações de epifania, correu até o interior da loja e trouxe um pedaço de queijo parmesão.

Derrota.

Reparei aí que minha namorada já havia me abandonado, fingindo não me conhecer do outro lado da rua. Fiquei furioso. Alho! Era alho! Alho não é tão difícil. Desesperado por qualquer mímica que remetesse ao bendito Allium sativum, levantei as mãos como se fossem garras e imitei um vampiro. É certo que o palpite de que eu era apenas um sujeito drogado com problemas de dicção retornou colossalmente à mente do francês. Ele desistiu, recuando cautelosamente. Olhei em volta e reparei que uma pequena platéia de franceses se amontoava ao meu redor. Não vi alternativa a não ser prosseguir com a mímica, confirmando a suspeita de surto psicótico. Levantei ainda mais as garras e fui me aproximando dos franceses da platéia. Haaaaarrr.

- Sácre bleu! - ouvi uma mulher dizendo, enquanto empunhava a câmera do celular com uma mão e alcançava o spray de pimenta com a outra.

Cortanto o ar gelado da noite parisiense, ouviu-se de uma rua adjacente uma sirene de polícia. Corri, sentindo nos tendões inferiores toda a deficiência amortecedora de minhas botas Timberland fétidas pelo abuso de meias usadas, até que dobrei o quarteirão.

Nada de alho no nosso molho naquela noite.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Academia

Não, não. Não é legal, não importa o que aqueles sujeitinhos de camisa agarrada te digam, estufando o peito e discorrendo sobre os benefícios de comer banana e levantar peso. Dói, é humilhante e todos os seus órgãos se perguntam o quê, meu deus, eles fizeram para merecer aquilo.

Escuta só.

Segundo dia de treino, depois de me recuperar de quatro dias de dores de parto espalhados pelo corpo inteiro, e eu estou com de volta naquele lugar chamado academia. Não pertenço. No hay banda. Uma camisa Dry-Fit me agarra como se eu TIVESSE que mostrar meus mamilos para o resto da humanidade, a minha bermuda Hering cinza velha não sente pudores em expor em tons mais escuros a mancha enorme de suor da minha bunda e meus tênis, que eu deixei secando na chuva paulistana, estão deflagrando uma guerra química contra qualquer aparato sensível num raio de 50 km. Eu sou o pária da academia, e ajo como um: meus olhos só saem da folhinha amarela de exercícios para um ponto vago no espaço, entre o teto e o espelho, evitando os olhares de nojo para a poça de suor que deixo em todos os cantos que posso.

140 kg, é o que diz a folha amarela do meu treino. Um aumento de 20 kg desde a primeira vez que treinei - aquela vez que tudo ficou escuro por um momento e eu consegui, no banco do vestiário, escutar as vozes de meus antepassados me chamando de longe enquanto tentava assegurar algum colega de academia que estava bem, ali mesmo, estirado e ofegante("Tô ótimo, é shiatsu, você devia tentar, juro! Tremores, você diz? Que nada. É terapêutico. Meu ouvido está sangrando, você diz? Bobagem, no começo é assim mesmo).

140 kg... Encaro o aparelho de ginástica em questão, um instrumento de tortura medieval remodelado, laqueado com tinta cinza brilhante e apelidado de Leg Press. Coloco a carga exigida pela minha treinadora, que vi exatamente uma vez na vida e é responsável por determinar meus próximos desafios super Bio Ritmo a uma distância segura de minha figura patética. Entro na máquina e me agacho, parando por um minuto na posição primitiva para escutar todos os meus músculos implorarem: "fique assim, só mais um pouquinho, só um pouco, por favor, fique nessa posição para todo o sempre, eu suplico...". Força. Estrelinhas faíscam no canto da minha visão. Dor, dor dor dor. E então, a vitória. A VITÓRIA! 140 kg nas minhas pernas! Eu estou de pé! Eu sou Aquiles! Sou Abbaddon, o destruidor de mundos. Sou Mezcantitlopl, o --

Algo interrompe minha epifania, e não estou falando do grande tendão que estalou algum lugar próximo da minha bunda. Estou falando de uma senhora meio raquítica que está movendo os lábios para mim, mas não a ouço. Tento controlar meus tremores enquanto tiro os fones de ouvido. Tento sorrir também, tento, e só consigo quando vejo o desfibrilador de emergência diretamente atrás da velha raquítica. Oh, velho amigo, você esteve aí o tempo todo...

A senhorinha quer dividir o aparelho comigo. Véia safada... Concordo, e cambaleio para fora do instrumento. A senhorinha toma meu lugar como quem diz "xô, baratinha, vá limpar o suor da bunda" e coloca uma carga de 180 KG. 180 kg! Essa desgraçada come giletes e parafusos de manhã?! Maldição.

Como se não bastasse, na minha vez de usar o aparelho ela fica ali do lado, ignorando solenemente os meus fones de ouvido propositalmente altos, altos para todo mundo escutar Nine Inch Nails e manter distância - ela ignora os fones, dizia, e conversa comigo. Ela conversa enquanto eu levanto o peso do mundo nos ombros, enquanto meus tendões gritam por clemência e aqueles mosquitinhos invisíveis voltam a aparecer no meu campo de visão.

Dor, dor, é tudo dor. Dor e a vontade insana de dizer:

- Olha, dona, eu estou tentando não me CAGAR TODO aqui e você não está ajudando!

Ah, aí ela ia ver. Maldita velhinha. Eu falaria isso, roubaria aquele desfibrilador de emergência e correria como se não houvesse amanhã, as pernas cheias de ácido láctico, tropeçaria escada abaixo para fora daquele god forsaken place, deixando para trás uma velhinha raquítica pasma, deixando para trás todos aqueles pesos e aquela gente fortinha e imbecil e - meu deus, sim, na saída eu daria um belo chute no CU daquele DJ imbecil que coloca aquelas músicas imbecis naquele lugar imbecil e cheio de dor, peso, gente imbecil e... e... e peso e gente imbecil, você está me entendendo? Precisa de mais?!

Mas eu não faço. Eu apenas sorrio e digo: "dureza, é, é dureza mesmo, essas coisas que a gente faz, hi, velhinha, hihi, velhinha assanhada, tira os olhos dos meus mamilos, velhinha". E vou suar em outro lugar.