domingo, 20 de julho de 2008

.Entre Parêntesis.

Um homem vai viver dentro de sua cabeça. As memórias são sua única moral. Eternidade? É uma opção. Lá dentro, há apenas ele e seus maiores desejos. O prazer só não é constante quando não é prazer. Ele sente seu corpo com as mãos, vê o dial de um relógio com nitidez, as luzes se acendem e se apagam – ele quer assim, e assim é. O mais real que ele pode conceber – o que ele mais deseja é que seja real. Tão real quanto for preciso. Ele ama sua mulher, e ela está lá, parece tão plena quanto ele, tão íntegra e tão humana. Mas é? Como podemos ter certeza? Como ele pode saber? Perguntando?

– Sou.

Mas está dizendo isso porque é?

– Só estou dizendo que sou.

É um apartamento como ele sempre quis – um loft, melhor dizendo, com uma janela do chão ao teto, olhando para a baía. O sol apenas aparece em suas melhores cores. Eles estão de pé. Estou na minha cabeça. Tenho tudo que desejo. Mas e agora?

– E agora? – pergunta à mulher.

Ela olha o dial do relógio. Volta–se para ele e diz:

– Faltam cinco minutos para a sua crise de realidade. Ela irá durar outros cinco minutos. Quer que eu feche as cortinas e tire suas roupas?

– Sim, querida, como quiser.

– Como quiser.

Cortinas fechadas, nus. Esperam. Então ele começa a sentir frio, e a perturbação nasce. Incha. Esta vai ser das grandes. Ela inabalável, nua, linda:

– Ai, ai. Quer que eu te guie, não é?

Ele não reage, está calado para não chorar.

– Ajudaria se você não enxergasse o relógio? – diz ela, olhando ela própria os traços do dial, que agora dançam, sem nunca definirem números. Ele solta um risinho amargo.

– Ajudaria se eu entrasse por aquela porta agora mesmo? – pergunta, voltando–se para a porta, de onde ela mesmo surge, vestida, parecendo preocupada.

– Querido! O que você está fazendo aí no chão, nu? Não está com frio?!

Ele está tremendo. Sente a mão da mulher tocando-lhe o braço e o levantando. Ela pára de estar preocupada, sorrindo com malícia.

– Que bobagem, querido, que bobagem. Quando é que você vai aprender?

Os dois estão em pé, de novo, e vestidos. Os números do dial estão claros agora – dez minutos depois. Ele limpa as lágrimas, espreguiça–se. Passou.

– Algum dia estarei fora da minha cabeça? – pergunta ele.

Sua mulher, então, declara:

– Se há alguma coisa que eu possa concluir disso tudo, é que precisamos desesperadamente trepar.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Da manhã

Vocês conhecem a cena. Acorda-se, lava-se a face, enverga-se uma roupa fresca (há quem tome banho), e dá-lhe mesa do café. Ainda esfregando os olhos, nos deparamos com um Nescau Cereal que é Mais que Radical, um Crunch que Detona a Galera e um Toddy da Vaca Louca que Ouve MP3 e Anda de Skate e Agita a Parada. eu me sinto culpado - acho que o meu café da manhã esperava que eu aparecesse gritanto e dando um golpe de capoeira para sentar à mesa.

Mas pensa bem... Cacete! Qual é o problema com esses publicitários?! É alimento, por deus! Comer não é uma experiência radical! Experimente pular de pára-quedas mandando uma taça de sorvete, ou mergulhar tomando Gatorade, ou surfar chupando picolé Rochinha. Dor de barriga, na melhor das hipóteses. Os doutores olhando uma radiografia de um pirulito atravessado num esôfago: "Eles nunca aprendem...".

Nem o mais infantil dos infantos se diverte vendo aqueles floquinhos de ração do tigre Tony amolecendo numa poça de leite. "Mas isto vai me dar a força do tigre?", pensam, cutucando a massa amorfa com a colher. E aí inventam o Nescau Power, que tem ainda mais chocolate, o Snow Flakes, que tem ainda mais açúcar, ou a Pepsi X, que é uma espécie de redução de refrigerante, um xaropão concentrado pra quem vai "pirar na balada". Imagina um festa que só serve esse treco, tigelas de Sucrilhos Banana e bolacha Passatempo. É questão de alguém esquentar o leitinho um pouco acima da conta e todo mundo dorme pela sala.

Publicitários... Aposto que se você tiver a chance de assistir um grupo de publicitários tomando café, vai dar de cara com uns quatro marmanjos pirando no açúcar. Um deles em cima da cadeira, espremendo o tubo Irado de leite moça com toda a força em cima da banana com Neston:

- YÉÉÉÉÉÉS! AÇÇÇÇÇÇUCAR!

O outro arrasa o ceral com Nutella sem mastigar, com os fones de ouvido no máximo, o terceiro lançando aviõezinhos de papel, andando de skate e tomando Nescau ao mesmo tempo, enquanto o quarto já está inconsciente depois da overdose de Farinha Láctea com Chantily. Ele ergue o bracinho, a pança escapando da camiseta:

- Radical, caras...

E vomita.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Olha a Merda

Lembro de passar tardes de domingo em meu sítio, eu criança, meu velho ainda jovem, os dois entre a família assistindo às Cassetadas do Faustão.

Era formidável olhar as pessoas nessa hora.

Olhos atentos, os pescoço tenso e, em seguida, invariavelmente, uma das três: o ranger de dentes de aflição, com algumas mulheres desviando o olhar e soltando um “iiiiif, que aflição”; uma gargalhada disposta; ou, nos casos mais graves, só um “nossa”, quando a coisa não tinha graça, era só um desfile cruel de crianças sendo golpeadas por balanços em movimento. Aí uma tia (a mesma que a pouco filmara em detalhes a própria filha comendo areia de construção, enquanto a câmera tremia com suas risadas) balbuciaria algo sobre pais irresponsáveis, mas deixaria a frase incompleta porque a próxima Cassetada vinha a galope.

Mas dentre os espectadores, o que mais me divertia era o meu pai. Ele sabia o que ia acontecer. Ele, cauteloso, nunca estaria nas Cassetadas – julgava-se imortal, superior aos incautos, obesos e desavergonhados em geral. E era.

[Ok, ele foi uma garotinho obeso um dia. Usava uma camisa de marinheiro e corria em velocidade Super 8 e cores debotadas, tocando aquela merda de sino que tinha no coreto da praça, aquela MERDA de SINO! "Gordinho desgraçado com essa MERDA desse sino! Sai daí! SAI!", diria meu avô, se a Super 8 tivesse som]

O sítio, enfim. Lembro-me - como que vejo-o agora - quando um casal bêbado aparecia na tela dançando em um casamento, ou uma senhora decidia perder as amarras e subir em uma câmara de pneu de caminhão para deslizar no gelo (e o Faustão exortava: “Essa é a Sogra Desvairada”, ou “A Baleia Assassina”); lembro-me, enfim, que no momento da expectativa o único que falava era meu pai, pontual:

-Olha a merda.

E todo o mundo olhava. E dava merda mesmo. E ele sorria com satisfação, como se tivesse escrito aquele roteiro:

“Argumento: Criança com bastão de Baseball acerta seu pai no saco...

Cena 1 – Externa / Diurna

Narrador em off: - Olha a merda.”

Os dias no sítio...

Hoje, quando estou prestes a cometer um erro, solto alguns risos sozinho, pois ouço um eco daquelas tardes, a cabeça preta do meu pai, ainda cabeludo por todos seus poros e em todos os sentidos, sentado, atento, sorvendo alguma bebida, dizendo de seu jeito cínico de espartano:

-Olha a merda.

E dá merda mesmo.