Um homem vai viver dentro de sua cabeça. As memórias são sua única moral. Eternidade? É uma opção. Lá dentro, há apenas ele e seus maiores desejos. O prazer só não é constante quando não é prazer. Ele sente seu corpo com as mãos, vê o dial de um relógio com nitidez, as luzes se acendem e se apagam – ele quer assim, e assim é. O mais real que ele pode conceber – o que ele mais deseja é que seja real. Tão real quanto for preciso. Ele ama sua mulher, e ela está lá, parece tão plena quanto ele, tão íntegra e tão humana. Mas é? Como podemos ter certeza? Como ele pode saber? Perguntando?
– Sou.
Mas está dizendo isso porque é?
– Só estou dizendo que sou.
É um apartamento como ele sempre quis – um loft, melhor dizendo, com uma janela do chão ao teto, olhando para a baía. O sol apenas aparece em suas melhores cores. Eles estão de pé. Estou na minha cabeça. Tenho tudo que desejo. Mas e agora?
– E agora? – pergunta à mulher.
Ela olha o dial do relógio. Volta–se para ele e diz:
– Faltam cinco minutos para a sua crise de realidade. Ela irá durar outros cinco minutos. Quer que eu feche as cortinas e tire suas roupas?
– Sim, querida, como quiser.
– Como quiser.
Cortinas fechadas, nus. Esperam. Então ele começa a sentir frio, e a perturbação nasce. Incha. Esta vai ser das grandes. Ela inabalável, nua, linda:
– Ai, ai. Quer que eu te guie, não é?
Ele não reage, está calado para não chorar.
– Ajudaria se você não enxergasse o relógio? – diz ela, olhando ela própria os traços do dial, que agora dançam, sem nunca definirem números. Ele solta um risinho amargo.
– Ajudaria se eu entrasse por aquela porta agora mesmo? – pergunta, voltando–se para a porta, de onde ela mesmo surge, vestida, parecendo preocupada.
– Querido! O que você está fazendo aí no chão, nu? Não está com frio?!
Ele está tremendo. Sente a mão da mulher tocando-lhe o braço e o levantando. Ela pára de estar preocupada, sorrindo com malícia.
– Que bobagem, querido, que bobagem. Quando é que você vai aprender?
Os dois estão em pé, de novo, e vestidos. Os números do dial estão claros agora – dez minutos depois. Ele limpa as lágrimas, espreguiça–se. Passou.
– Algum dia estarei fora da minha cabeça? – pergunta ele.
Sua mulher, então, declara:
– Se há alguma coisa que eu possa concluir disso tudo, é que precisamos desesperadamente trepar.