quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Curso de proporções reduzidas, a.k.a. Cursinho

A época do Cursinho, também conhecida como o quarto ano de colegial da maioria das escolas particulares, é um limbo. Uma sala de aula cheia de pessoas que não se conhecem, todas carentes por atenção, um último conforto. Também conhecido como um bando de babacas, em suma.

Eu lembro bem da minha época. Estudava pra chuchu (mentira) no colégio e pegava carona até o cursinho, enquanto comia no carro com mais cinco pessoas (infelizmente, verdade). Não esqueço o cheiro tenebroso que saía da tupperware azul marinho de uma colega vegetariana. Parecia um vapor de sarcófago. Abríamos a janela, desesperados, mas os vapores, imagino, eram mais pesados que o ar, e insistiam em ficar no carro, grudar na roupa – outro dia, pensei ter até visto a nuvem fétida de tofu e grãos de soja voar esverdeada para fora da janela do carro, como aquelas almas penadas de filme B.

- Meu Deus, Gabi, o que você trouxe aí dentro?!

- Ai, seu bobinho. Carne é assassinato.

- Carne? Tofu é genocídio! Você sabe as crueldades que eles fazem com a soja para ela ir parar aí no seu tupperware?

Aí a discussão se interrompia porque outra colega, lutando com as lei de Newton - a da gravidade e aquela segundo a qual dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço -, emborcava algo como feijão preto (morno, ó deus, mooorno) na minha perna.

O Anglo Sergipe, meu cursinho, tinha uma filosofia de enfiar quantas pessoas coubessem em uma sala, para aumentar a renda e fazer com que todos prestassem atenção. As cadeiras eram como conchas de madeira que contorciam as lombares pueris para que ninguém sentisse uma gota de conforto. Dormir não era uma opção. Suspeito que eles enfiariam palitinhos para suspender nossas pálpebras, se fosse preciso. Mas não era, porque o cursinho é cheio de gente animadinha.

- BICHA!!!! BICHAAAAA! - gritava a turma do fundão quando o professor entrava.

- VEAAADOOO! VEAAADOOOOO! TAAAANGA! - bradiam ensandecidos, com fúria genuína enquando se erguiam e cravavam as unhas nas cadeiras.

- MOOOOORMAAAAÇOOOOOOO!

E o professor parava de rir e falava:

- Mormaço? Cacete, vocês andam falando demais com seus avós. "Não parece mais queima"... Ah, os anos 70...

Eu sentava na frente. De maneira alguma para prestar mais atenção. É que as fileiras de cadeiras eram tão apertadas que você mal de mexia quando estava sentado, e tinha que esperar a procissão cadavérica de jovens se mover para poder sair quando tocava o sino. Se sua borracha caía enquanto você estava prensado no seu lugar, imobilizado, tinha que fazer um esforço para esquecê-la; ela nunca mais voltaria. Em algum lugar embaixo daquelas cadeiras, haveria de existir um mundo de coisas perdidas de alunos dos últimos 200 anos. Uma caneta tinteiro, bilhetinhos na segunda pessoa do plural (“Vós sois minha alma, ó Paloma Pandão. Amassar-nos-emos detrás do tronco de ipê?”) e aquele menino pequeno demais, agora um velho barbudo sobrevivendo de Skittles desertores e migalhas de pão, que certo dia desapareceu enquanto seu amigo sondava a cadeira vazia e dizia: “Jimmy?! Jimmy?!!”.

Sentar à frente tinha suas vantagens e desvantagens. A saber, eu não era imune aos respingos de saliva dos professores. Mas era o primeiro a sair daquela atmosfera de bafos estudantis. E ar condicionado. Um ar condicionado monstruoso que fora adquirido ilegalmente de alguma fábrica falida da Alemanha Oriental. “Über Contitionen 7000”, famoso por criar microclimas em cidade inteiras consumindo monstruosidades de energia elétrica, além de exigir o sacrifício de uma virgem a cada solstício.

Não eram tempos fáceis, mas eu fazia um favor a mim mesmo e me tornava o sujeito mais anti-social do mundo. Então olhava com desprezo para toda aquela gente uniformizada do Rio Branco e do Dante. Uniformizada. Inferiores. Céus. Bem, foi esse tipo de pensamento que me levou a ter um, e somente um, amigo durante o decorrer no cursinho.

O nome dele era Yannick (sic). Ele tinha uma cara de inglês – e acho que era mesmo, o que eu fazia questão de ressaltar quando quer que estivéssemos discutindo, usando sua nacionalidade como um argumento final: “É, foda-se, você é inglês”. Ele se indignava e falava algo como “Eu só morei lá quando tinha quatro anos...” – BLÁ BLÁ BLÁ, foda-se, é inglês. E era um garoto adorável. Um dia ia se tornar um grande DJ, como ele mesmo dizia. E passávamos horas me explicando a diferença entre Trance e PsyTrance:

- Cara! Trance é coisa de babaca. Aquela musiquinha de baladinha, saca? Aquele pessoal que nunca foi pra rave, ta ligado – e agitava os braços de um jeito engraçado – PsyTrance é muito mais desenvolvido, cara. Tipo, muito mais elaborado, tem um síncope de baixos com freqüência mais altas...

BLÁ BLÁ BLÁ. Inglês desgraçado. E aí ele enfiava aquele iPod no meu ouvido, mostrando um Trance e um PsyTrance em seguida.

- Pegou a diferença?

Não, caralho, parece um monte de robô tendo ataque epiléptico, eu diria. Mas não dizia. Eu precisava daquele amigo tanto quanto um beduíno precisa de um camelo. E no fim das contas, Yannick não era de todo ruim. Ele acreditava naquele treco que fazia – e fazia bem. As composições dele poderiam estar tocando em alguma rave em Israel, contanto que ele conseguisse se enfiar furtivamente no palco enquanto os organizadores estivessem muito ocupados correndo atrás de galinhas imaginárias e bules de chá com temperamento ruim.

Yannick era certamente melhor do que aquela gente uniformizada. Uniformizada. Anular. Conversação. Abortar. Matar. Abortar. Para essa gente, qualquer coisa era motivo de confraternização. Um dia, descontrolado pelos gases profanos exalados pelo ar condicionado e entorpecido pelas partículas de poeira e serragem que desprendiam-se das cadeiras, tive a pachorra de espirar. Alto. Para quê? Gargalhadas. "Ha-ha-ha, necessidades fisiológicas me descontrolam de tanto rir. E uso uniforme". Comentário engraçadinho do professor, algum insulto da turma símia do fundão e lantanídeos tudo de novo.

Chegou o intervalo e me preparei para levantar quando me vi encoberto de sombras. Eram da turma do fundão.

- Ei, cara, foi um baita de um espirro que você soltou no meio da aula, cara. - disse o do meio.

- Éééé, cara. - conclui o mais distante

- CALABOCA, BERT! CALA ESSA MALDITA BOCA! - estourou o primeiro. Então, com uma cara aprazível, continuou - Eu sou o Earl. Este são o Jason e o Bert. Nós somos do fundão.

Apertei sua mão já me enxergando no banheiro, lavando-a compulsivamente.

- Foi um diabo de um espirro mesmo, cara. Eu sou o carra dos pigarros. O Jason tosse e o Bert boceja alto. Escuta, a gente vai dar um tempo na esquina, sabe? Nos rescostar na parede com o pé apoiado, cruzar os braços e mascar chiclé. Você não quer vir com a gente?

"Hããããããm... N-Ã-Ã-O", pensei em dizer. Mas intimidei-me diante da tatuagem de marinheiro do Jason.

- Olha, caras, eu não quero encrenca, caras. Se eu não passar no vestibular, o meu pai me bate. Na boca. Com uma corrente. Sabe como é? Hehe, eu preciso estudar.

Eles ficaram pasmos. Detiveram-se, coçando as cabeças e olhando uns para os outros. Jason , que estava de braços cruzados, ajeitou-se em suas pernas e olhou para Bert, que arregalou os olhos. O ar foi se adensando e decidi abrir a boca. Abri-a. Mantive-a assim e babei. Babei como se a minha vida dependesse disso.

- Vamos cair fora, caras! Esse cara é da pesada! - disse Earl. E os três fugiram.

Yannick mijava de rir ao meu lado.

- Você fuma crack. - disse.

Fui até o banheiro lavar a mão, o que me tomou os 15 minutos inteiros do intervalo.

domingo, 7 de setembro de 2008

Pássa-PássaTempo-Pássa-pássa-pássaTempo-PássaETodo-mundo-estáCorreeeendo

- A gente saía durante o intervalo para matar a última aula. Passávamos no supermercado e comprávamos um pacote de Passatempo recheadas. As recheadas eram engraçadas, porque para tirar do pacote, após uma certa idade, você tinha que contar duas elevações, meter a unha e empurrar a bolacha até a parte de cima da embalagem. Nada de rasgar o plástico todo – Deus, não éramos mais crianças! Fora que ninguém estava com pressa, porque, pensando bem, acho que nem gostávamos daquela bolacha! Olha, era mais pelo ritual! - Ele havia esbugalhado os olhos se explicando esta última parte. Descansou um pouco, se acalmou, e prosseguiu – De qualquer jeito... Um dia o Tuca trouxe um pouco de maconha que ele tinha conseguido com o irmão. Quando digo “conseguido”, quero dizer que ele havia roubado da gaveta do quarto do irmão, o que significava que estava doido para ficar na rua o máximo de tempo que pudesse, porque em sua casa tinha uma bela surra esperando por ele. E até então, por meus dons matemáticos, eu era responsável por tirar as bolachas do pacote. Eu era bom naquilo, Nanda. Bom pra cacete – porque, sabe quando por acaso você conta errado e acaba tirando uma bolacha pela metade? Bem eu era ótimo naquilo, porque corrigia o erro logo na rodada seguinte, sacrificando-me a comer uma metade de bolacha que estava destruindo a harmonia do pacote. Era um sacrifício porque ou a parte não tinha recheio, o que significava ser enganado pela multinacional das Passatempos, ou tinha muito recheio, que era ruim pra cacete.


Nanda estava atenta, tão atenta que começou a ficar desconfortável de tanto olhar Caio nos olhos. Não que estivesse querendo qualquer coisa, mas os parágrafos de Caio eram tão longos que davam tempo para que ela pensasse em como estaria a sua própria cara olhando para ele. E sempre que fazia isso, pensava que devia olhá-lo naturalmente nos olhos; assim, olhava-o nos olhos de um jeito esquisito. Então passou a olhá-lo no queixo.


- Que foi? Tem alguma coisa no meu queixo?


Não não, não era nada, que continuasse.


- Bem, então eu era bom naquilo, compensando as bolachas e tudo... Porra, Nanda, que que foi?!


- Nada, caralho. Pronto, vou olhar pra sua testa.


- Por quê?! Que tem a minha testa?! Espinhas, né? Escuta, eu vou começar com o Racutan semana que vem...


- Porra, Caio, termina logo a história que eu preciso mijar – Disse, olhando o banheiro do outro lado o pátio, que ainda estava ocupado por aquela gorda ingrata da Gabriela.


Ele passou a mão na testa antes de continuar.


- Bom, caralho. Então acontece que a gente fumou e eu fique a cargo das bolachas. E fiquei nervoso, porque estava fumado e achei que não ia dar conta do recado. E todo mundo estava doido por bolachas aquele dia, claro. Mas, que diabos, não sei o que houve que não conseguia mais tirar bolachas inteiras do pacote! Só metades! O pessoal levou um tempo pra reparar, mas quando finalmente se deram conta de que a bolacha estava toda ferrada, ficaram intrigados. E a turma se dividiu – Separou uma ala no ar – O Digo, a Carol e acho que o Luca, que tava com a gente aquele dia sei lá porquê, ficaram colocando a culpa em mim! - Separou a outra ala com outro gesto – E o Churras, a Lau, o Tuca e o Greg tinham certeza que aquele pacote de bolachas tinha vindo em números primos. Tipo uma PG de ímpares, ou algo assim que o Greg tentou explicar, mas não conseguiu. Eu ficava olhando pro pacote de bolachas, tentando encarar a derrota, procurando no pacote algo como “Edição Limitada – Números primos e macaquinhos!”, sei lá, sabe? E aí nunca mais fumei.


Nanda gargalhava.


- Que!? Que foi?! Tem algo no meu queixo, né? Na porra do meu – Nanda! Caralho! Que foi?!


Ela tomou fôlego e disse, engasgando nas risadas:


- Ai, Caio, não acredito! Macaquinhos... Menino! - Passou a mão no seu queixo, que tinha um fiapo de manga, sim, agora ela tinha visto – Ai, Caio. - Ficou séria - Escuta! Não vai contar isso pra mais ninguém, hein? Parar de fumar maconha por causa do pacote de bolachas... Bobo.


- Não, Nanda, era uma conspiração! Um choque de realidade! - Dizia, afoito como Woody Allen– Que nem quando você descobre que Danoninho é queijo suíço!


Silêncio.


- Quêêêê?!


E outro colóquio deu-se. Ao fim da tarde, Nanda escreveria que teve uma conversa das mais profundas com Caio naquela manhã. As pessoas de sempre – sua mãe, sua irmã e sua melhor amiga, somente – leriam o blog e comentariam três vezes cada uma, com pseudônimos diferentes.


Caio iria para a casa a pé, com a certeza de estar apaixonado. Depois imaginaria Nanda vestida de pirata e sonharia com férias, patinetes e outono.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Do livro de memórias de Sinclair

Comemorando sozinho o meu trigésimo nono aniversário, o abrir da garrafa de Bourbon à frente da luz de uma única vela me incorreu em um lampejo súbito, e dei-me conta de que não estava comemorando 39 anos, mas 41.

São as pequenas delícias de uma vida solitária. Correndo até o calendário (que guardo ao lado da tesoura de costura, geralmente usada para abrir o leite, e um molho de chaves mortas na gaveta da cozinha), percorri o 6 de outubro desde o meu nascimento, me esforçando para encontrar a minha pessoa em todos os meus aniversários. Concluí que simplesmente me esqueci de comemorar o 21º aniversário – provavelmente em ocasião da Grande Fuga, que me tomava toda a energia e o esforço mental à época. Comemorei 21 anos no ano seguinte quando completava 22. Como se não bastasse, coisa semelhante se repetiu aos meus 30 anos, por ocasião de um relacionamento especialmente ruim que acabou em chantagens e assassinato (à velha moda grega).

Com ninguém ou quase ninguém para lembrar-me de minha idade, fui enganado até que a garrafa de Jack Daniel’s à frente da luz mortífera me trouxe de volta os dois anos de velhice. Quantos segredos não se escondem em uma garrafa de destilado... Naquela mesma noite, o líquido castanho me presenteou com olhos turvos, e a chama da vela me trouxe à lembrança a língua quente de minha segunda namorada.

- Ai! Minha ‘coja’!

Soltando os dentes de pele, que agora tinha um anel vermelho da fileira de dentes, olhei para cima e perguntei:

- Minha o quê?

- Minha ‘coja’! Você mordeu minha ‘coja’.

Naquele mesmo ano eu havia desenvolvido a capacidade de falar palavras em itálico:

- ‘Coja’?! Eu mordi sua coxa. Você tem mais uma chance para acertar a pronúncia da palavra.

- Co... Ah, dane-se. Seu fascista. Minha perna, pronto, você mordeu minha perna. Quem liga?

Eu ligava. Levantei.

- Vou comprar cigarros.

Não fumava. E não voltei.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

A Repórter Televisiva de TPM

Vai à rua fazer o que faz de melhor. Aborda um casal jovem, ela negra e bonita, ele branco e vermelho como um russo estapeado, cara de menino, sem muito saber o que fazer.

- São só umas perguntinhas fáceis, não demora nada – sorri a âncora.

O casalzinho sorri, crianças prestes a ganharem um punhado de balas Iogurte 100, que são gostosas até que você come uma dúzia delas e repara que o sabor é idêntico ao cheiro de um saco de lixo vazio. Opa, devaneio - e não existo, narrador invisível que sou. Volto ao casal, que sorri, dizia. A repórter arruma o cabelo, dá o sinal para o câmera. Nos segundos antes da fita gravar, parece irritada, ou quem está prestes a chorar, mas sorri como JK em cima de um fusca. Começam as perguntas, dirigidas a ambos:

- Você acredita que o brasileiro é preconceituoso?

- Não, de jeito nenhum. Isso é coisa de americano – responde ela.

- É, é, concordo, concordo. – fala o menino, meio olhando para o chão, se avermelhando como se tivessem estapeado mais ainda o russo da comparação do primeiro parágrafo.

- Mas vocês dois nunca receberam um olhar estranho por serem de raças diferentes?

- Ah, às vezes tem, mas não dá pra saber se é porque ele parece um russo estapeado, se é porque eu sou bonita ou qualquer coisa assim. Não dá. Racismo é coisa de americano. – ela de novo.

- É, concordo, concordo. – a mesma pantomima infeliz.

Os argutos telespectadores notariam que neste momento nossa repórter encara o menino com a boca semi-aberta com uma cara de asco muito mal disfarçada. Permanece assim por alguns segundos, encarando o menino nos olhos, a boca pendendo, até que desperta de repente e solta a terceira pergunta:

- Vocês estão juntos há quanto tempo?

- Dois anos e meio agora. Fazemos aniversário hoje! – anima a menina, olhando para a câmera de frente.

- É, dois anos e meio sim. – diz aquele menino, de novo com o jeitinho de olhar pro chão e ficar vermelho.

“O-ou”, diz o câmera. As sobrancelhas de nossa repórter se envergam como bailarinas e ela dirige-se somente ao menino, apontando o microfone como se quisesse mostrá-lo à vítima antes de enfiá-lo goela abaixo:

- E vem cá, você é cachorrinho, é? É cachorrinho que você é?

Coitado, ele não entende, e sorri esperançoso para a repórter. Mas não dura muito:

- Ela bate em você é? Você só concorda com ela, não diz nada não? – ela já estourou, os filamentos pipocaram, descabela-se, furiosa, mas ainda fala no microfone – Sabe, você devia arruma uma camiseta escrito “pergunte a ela” e andar do ladinho dela assim, ó. Aí se alguém perguntasse alguma coisa você só apontava a camiseta, sabe? “Lê aqui, ó”! Trouxa! Você é um trouxa mesmo, seu trouxa! Eu não agüento mais essa merda. Eu quero um homem de verdade! Alguém tem bolas nesse lugar?! – grita para toda a Avenida Paulista – Alguém tem bolas?! Ninguém?! E sabia... E você! – olha para a menina, que já cravara as unhas no braço de menino, tendo ele feito o mesmo com sua mão livre, os dois encolhidos – dois anos e meio com esse... Esse... Esse menino?! Me-ni-no, é o que você é – a ele, o dedo a centímetros do rostinho – Vai chorar, neném?! Quer chorar, menininho?! VAI CHORAR?!

Então ela pára, de repente, e seu rosto se entristece. Uma nuvem encolhe suas feições, ela desesperada de tristeza, chora alto:

- Eu estou tão sozinha... E eles, eles tem um ao outro. Minha mãe, ela não me dava o peito, só a mamadeira. Eu sou uma vaca frígida. Ninguém gosta de mim, e esse menino, ele... Ele é só um menino, eu sou uma monstra – soluça - Eu não quero mais, Vieira, sai pra lá com essa câme-- cai o áudio porque ela finalmente larga o microfone e sai cambaleando de tristeza.

A câmera filma ela por um tempo, depois volta ao casal boquiaberto, volta à repórter, que já chama um táxi, volta ao casal boquiaberto. Passam séculos e bolas de feno. Aí o menino se recupera e pergunta ao câmera:

- Vai ao ar quando?

domingo, 20 de julho de 2008

.Entre Parêntesis.

Um homem vai viver dentro de sua cabeça. As memórias são sua única moral. Eternidade? É uma opção. Lá dentro, há apenas ele e seus maiores desejos. O prazer só não é constante quando não é prazer. Ele sente seu corpo com as mãos, vê o dial de um relógio com nitidez, as luzes se acendem e se apagam – ele quer assim, e assim é. O mais real que ele pode conceber – o que ele mais deseja é que seja real. Tão real quanto for preciso. Ele ama sua mulher, e ela está lá, parece tão plena quanto ele, tão íntegra e tão humana. Mas é? Como podemos ter certeza? Como ele pode saber? Perguntando?

– Sou.

Mas está dizendo isso porque é?

– Só estou dizendo que sou.

É um apartamento como ele sempre quis – um loft, melhor dizendo, com uma janela do chão ao teto, olhando para a baía. O sol apenas aparece em suas melhores cores. Eles estão de pé. Estou na minha cabeça. Tenho tudo que desejo. Mas e agora?

– E agora? – pergunta à mulher.

Ela olha o dial do relógio. Volta–se para ele e diz:

– Faltam cinco minutos para a sua crise de realidade. Ela irá durar outros cinco minutos. Quer que eu feche as cortinas e tire suas roupas?

– Sim, querida, como quiser.

– Como quiser.

Cortinas fechadas, nus. Esperam. Então ele começa a sentir frio, e a perturbação nasce. Incha. Esta vai ser das grandes. Ela inabalável, nua, linda:

– Ai, ai. Quer que eu te guie, não é?

Ele não reage, está calado para não chorar.

– Ajudaria se você não enxergasse o relógio? – diz ela, olhando ela própria os traços do dial, que agora dançam, sem nunca definirem números. Ele solta um risinho amargo.

– Ajudaria se eu entrasse por aquela porta agora mesmo? – pergunta, voltando–se para a porta, de onde ela mesmo surge, vestida, parecendo preocupada.

– Querido! O que você está fazendo aí no chão, nu? Não está com frio?!

Ele está tremendo. Sente a mão da mulher tocando-lhe o braço e o levantando. Ela pára de estar preocupada, sorrindo com malícia.

– Que bobagem, querido, que bobagem. Quando é que você vai aprender?

Os dois estão em pé, de novo, e vestidos. Os números do dial estão claros agora – dez minutos depois. Ele limpa as lágrimas, espreguiça–se. Passou.

– Algum dia estarei fora da minha cabeça? – pergunta ele.

Sua mulher, então, declara:

– Se há alguma coisa que eu possa concluir disso tudo, é que precisamos desesperadamente trepar.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Da manhã

Vocês conhecem a cena. Acorda-se, lava-se a face, enverga-se uma roupa fresca (há quem tome banho), e dá-lhe mesa do café. Ainda esfregando os olhos, nos deparamos com um Nescau Cereal que é Mais que Radical, um Crunch que Detona a Galera e um Toddy da Vaca Louca que Ouve MP3 e Anda de Skate e Agita a Parada. eu me sinto culpado - acho que o meu café da manhã esperava que eu aparecesse gritanto e dando um golpe de capoeira para sentar à mesa.

Mas pensa bem... Cacete! Qual é o problema com esses publicitários?! É alimento, por deus! Comer não é uma experiência radical! Experimente pular de pára-quedas mandando uma taça de sorvete, ou mergulhar tomando Gatorade, ou surfar chupando picolé Rochinha. Dor de barriga, na melhor das hipóteses. Os doutores olhando uma radiografia de um pirulito atravessado num esôfago: "Eles nunca aprendem...".

Nem o mais infantil dos infantos se diverte vendo aqueles floquinhos de ração do tigre Tony amolecendo numa poça de leite. "Mas isto vai me dar a força do tigre?", pensam, cutucando a massa amorfa com a colher. E aí inventam o Nescau Power, que tem ainda mais chocolate, o Snow Flakes, que tem ainda mais açúcar, ou a Pepsi X, que é uma espécie de redução de refrigerante, um xaropão concentrado pra quem vai "pirar na balada". Imagina um festa que só serve esse treco, tigelas de Sucrilhos Banana e bolacha Passatempo. É questão de alguém esquentar o leitinho um pouco acima da conta e todo mundo dorme pela sala.

Publicitários... Aposto que se você tiver a chance de assistir um grupo de publicitários tomando café, vai dar de cara com uns quatro marmanjos pirando no açúcar. Um deles em cima da cadeira, espremendo o tubo Irado de leite moça com toda a força em cima da banana com Neston:

- YÉÉÉÉÉÉS! AÇÇÇÇÇÇUCAR!

O outro arrasa o ceral com Nutella sem mastigar, com os fones de ouvido no máximo, o terceiro lançando aviõezinhos de papel, andando de skate e tomando Nescau ao mesmo tempo, enquanto o quarto já está inconsciente depois da overdose de Farinha Láctea com Chantily. Ele ergue o bracinho, a pança escapando da camiseta:

- Radical, caras...

E vomita.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Olha a Merda

Lembro de passar tardes de domingo em meu sítio, eu criança, meu velho ainda jovem, os dois entre a família assistindo às Cassetadas do Faustão.

Era formidável olhar as pessoas nessa hora.

Olhos atentos, os pescoço tenso e, em seguida, invariavelmente, uma das três: o ranger de dentes de aflição, com algumas mulheres desviando o olhar e soltando um “iiiiif, que aflição”; uma gargalhada disposta; ou, nos casos mais graves, só um “nossa”, quando a coisa não tinha graça, era só um desfile cruel de crianças sendo golpeadas por balanços em movimento. Aí uma tia (a mesma que a pouco filmara em detalhes a própria filha comendo areia de construção, enquanto a câmera tremia com suas risadas) balbuciaria algo sobre pais irresponsáveis, mas deixaria a frase incompleta porque a próxima Cassetada vinha a galope.

Mas dentre os espectadores, o que mais me divertia era o meu pai. Ele sabia o que ia acontecer. Ele, cauteloso, nunca estaria nas Cassetadas – julgava-se imortal, superior aos incautos, obesos e desavergonhados em geral. E era.

[Ok, ele foi uma garotinho obeso um dia. Usava uma camisa de marinheiro e corria em velocidade Super 8 e cores debotadas, tocando aquela merda de sino que tinha no coreto da praça, aquela MERDA de SINO! "Gordinho desgraçado com essa MERDA desse sino! Sai daí! SAI!", diria meu avô, se a Super 8 tivesse som]

O sítio, enfim. Lembro-me - como que vejo-o agora - quando um casal bêbado aparecia na tela dançando em um casamento, ou uma senhora decidia perder as amarras e subir em uma câmara de pneu de caminhão para deslizar no gelo (e o Faustão exortava: “Essa é a Sogra Desvairada”, ou “A Baleia Assassina”); lembro-me, enfim, que no momento da expectativa o único que falava era meu pai, pontual:

-Olha a merda.

E todo o mundo olhava. E dava merda mesmo. E ele sorria com satisfação, como se tivesse escrito aquele roteiro:

“Argumento: Criança com bastão de Baseball acerta seu pai no saco...

Cena 1 – Externa / Diurna

Narrador em off: - Olha a merda.”

Os dias no sítio...

Hoje, quando estou prestes a cometer um erro, solto alguns risos sozinho, pois ouço um eco daquelas tardes, a cabeça preta do meu pai, ainda cabeludo por todos seus poros e em todos os sentidos, sentado, atento, sorvendo alguma bebida, dizendo de seu jeito cínico de espartano:

-Olha a merda.

E dá merda mesmo.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Auto-explicativo

Bem, basta saber que Sheyla é minha amiga jornalista que trabalha na Bravo! e que estávamos conversando por MSN quando isto se deu:

[16:10] Sheyla: bruno, eu tô muito triste. e quero ir embora nesse exato minuto.
[16:11] Bruno: sheyla, vamos descer e tomar um café. aí você cheira meu sovaco e eu te explico como funciona a imprensa

domingo, 8 de junho de 2008

Diga logo que eu quero saber.

Eu ainda sinto a solidão de ligar o celular depois de três dias e ver que não recebi a sua ligação. Nem uma mensagem, nada. Não tenho você na minha lista telefônica, meu quarto não tem retratos. Quando me banho, penso em você e me sinto traído - a vida está pela metade, a água escorre pela minha pele mas não me molha, o vento me encontra impassível, alheio ao meu próprio sofrimento. Bocejo como um prisioneiro, e meus olhos se umedecem por capricho. Não sei onde estou, mas suspeito de que esteja flutuando em algum lugar distante, procurando você.

Então, tolo, acordo dolorido e aprendo de uma vez por todas que não adianta procurar.
Antes, preciso descobrir quem é você.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Um Almoço com a Família Cipro Neto

Pasquale está sentado na ponta, diante de uma mesa de almoço farta em sua casa em Perdizes. A luz entra por uma janela lateral, abatendo o opaco das cortinas. A família ceia em absoluto silêncio. A filha mais velha, de boca cheia, fala:
- Existe um rapace em minha escola que tem os olhos de rapina, mas é tão glutão que é só uma barriga!
Os risos da mamãe a da filha mais nova são interrompidos por um brado de Pasquale:
- Uma barriga?! Isso é uma sinédoque?! Isso é uma sinédoque?! Eu já disse: nada de metonímias nesta mesa! Mas que falta de respeito! Não sei de onde você tirou essa educação! E coma sua couve de Bruxelas! Ora...
Após um momento de silêncio constrangedor, a filha mais nova, em seus sete aninhos, fala tímida se dirigindo à mãe:
- Não estou com fome, mamãe. Comi na escola. Sabe, no jardim tem uma amoreira linda, que dá cada amora!
Pasquale vira-se furioso:
- "Amoreira que dá amora"?! UM PLEONASMO!! JÁ PRO SEU QUARTO!

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Horóscopo do Dia


Áries:

O mundo se desdobra em prosperidade com a passagem de Netuno pela sua constelação. Então trate de me pagar aqueles 5 reais que eu te emprestei semana passada pro enroladinho.

Sagitário:

O prospecto não é bom. Lembre-se de olhar sempre para a frente, para além do imediato. Juro por deus que se você aparecer com mais um amassado no meu carro eu tiro o seu Playstation 3 por uma semana! Uma semana!! E vai arrumar um emprego, cacete.

Touro:

Está tudo ótimo com seu mundo cósmico. Juro, está nas estrelas! Você é teimosa, hein? Pare de me ligar de madrugada! Mãe, eu sei o sacrifício que você fez pra me criar. Juro, está nas estrelas, tudo bem no seu mundo cósmico. Sim, eu ligo se mudar. Toma o remedinho, toma?

Virgem:

Sua Lua está em chamas, baby, como dizemos nós astrólogos na nossa reunião semanal [risos]. Então muito calma nessa hora. Muita. Calma.

Calma, Sheyla! Sheyla! Pára quieta! QUIETA! PÁRA! SOCORRO! ENFERMEIRA!! EM-FER-MEI-RAAAA!

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Péssimas e boas

Do Manual das Péssimas Maneiras:

1 - Reparar que seu chefe está com a braguilha aberta e discretamente encaminhar um e-mail a ele com os dizeres: "Com todo o respeito, Sr. Chefe, o ratinho está fora da toca".

2 -Incluir todo o escritório, parte da família e e-mail de jornalistas com blogs agressivos em cópia oculta.

3 - Ouvir as gargalhadas em absoluta placidez.


Das Pensatas do Fantasma de Plínio Salgado:

"Serguei" não é um nome, ora! É um verbo transitivo direto e seu objeto!

De uma breve conversa por MSN com minha mãe, no meio do expediente:

[12:30] mariella: Bruno, quero almoçar ás 13 horas hoje.
[12:30] Bruno: mãe, eu quero uma maleta cheia de dinheiro entregue à minha porta pelo governo do estado às 15h
[12:31] mariella: Eu também. Há alguma possibilidade?
[12:31] Bruno: vou ligar pra assessoria
[12:31] mariella: Tá devendo pra alguém?
[12:31] Bruno: POR QUE!? ELES LIGARAM?!


Desafio do dia: descobrir quais serão os marcadores da minha próxima postagem (sim, teremos próximas postagens!)

domingo, 11 de maio de 2008

Desfatos

Outro dia eu estava assistindo Discovery Channel e você nem imagina o que eles descobriram. Existe uma ilha no Pacífico Norte, se não me engano, que está apinhada de ossos de Dinossauros. E eram ossos de répteis que até então, acreditava-se, tinham vivido em épocas e espaços muito separados! Surpreendenete, não? Mas escuta só: o negócio assustador é que eles estavam todos juntos, em um ponto só, Brontossauros e Tiranossauros, Trilobitas e Velociraptors, todos, todos, em roda, fazendo um lual! Não é inacreditável? Um luau!
Só não estavam os Pterodáctilos, porque depois do fracasso do piquenique, eles nunca mais foram convidados pra nada.
Ei, onde você vai? É verdade! No Discovery! Eu não invento - ora, não faça assim! Você ficou brava mesmo? Hein? Ou! Ei! Você tá brava de verdade? EI!.....

Me liga?!

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Pequenas coisas

Por alguma razão, sinto-me tentado a escrever sobre patinetes, férias e outono. Então me dou conta de que não tenho nenhuma da três coisas.

Não tenho medo da solidão, não tenho medo do futuro. Sofro o presente como é conveniente fazer. Mas não em deixe em silêncio por um maldito minuto. As coisas não ditas são tantas, tantas possibilidades (infinitas) que me esmagam só de tentar pensar. Acho que no silêncio as pessoas deveriam ser desligadas por uma força maior, simples assim. Pois é no silêncio que o Homem enfrenta o seu maior medo: o seu maior medo.

Por isso gostamos do mar. E de chuva. Por isso dormimos em festas quando somos pequenos. É tudo uma relação de barulhos.

[Nunca vi um texto com tantas negativas. Acho que é na negação que encontro uma auto-indulgência sem dignidade. Acho que neste buraco sem vergonha que minha vida entrou, tudo que me resta, patético como um senhor de engenho sem engenho, é numerar o que não tenho. Quando começo a listar, acabo parando no número 1...] Mas não choro.


Nem morto.

terça-feira, 15 de abril de 2008

O exame de doping de Betão acusou o uso de substâncias radioativas.

domingo, 13 de abril de 2008

Folha

Amanheceu. Havia uma folha seca grudada no pára-brisa do meu carro, bem na frente do banco do motorista. Fiquei com pena daquela tentativa desesperada da natureza de me matar.


Achar dinheiro no chão é aceitar um cinismo do acaso. Ele te paga, como que dizendo: isto é pelos problemas que virão na sua vida. E é impossível recusar.

Serial killers são tão bobos. Pior são os filmes sobre eles. Convém perguntar o que veio antes, serial killers ou filmes sobre serial killers.

Queria ser um cavalo.

Mas chega, porque isto é masturbação. Como se alguém quisesse saber.

segunda-feira, 31 de março de 2008

A vida secreta das marionetes

Estou preso. Preso e não consigo acordar. A imaginação tem cá seus truques para nos colocar em um pequeno mundo, e os medos os têm para prender-nos neles. Que te parece?

- Que foi isso?! – diz ela, olhando em volta espantada, por trás de suas pernas cruzadas, a sala plácida encontrada por fachos de luz que entravam pela parede de vidro.

Ele, que lia o jornal, confunde-se com a aba da caneca e verte a sopa Vono sobre seu saco.

- Digo, sobre a roupa que cobria seu saco – diz ela.

- O que disse? – ele.

- Nada, - pensei alto – dizia: que foi isso?

- O quê?

Você não ouviu nada?!

Silêncio. Ele pergunta de novo. “O quê?”.

- Você não ouviu nada? – pergunta ela.

- Necas. Que é?

- Nada, acho.

Calam-se. Ele se levanta sem adjetivo nenhum, nem um sorriso ou uma ruga de frustração por ter manchado as calças, e vai buscar papel-toalha. Ela olha em volta um segundo, procurando de novo a voz pelos ângulos da casa. Vê ele, um homem tão bonito, mas que ora se assoma insensível, como se lhe faltasse sangue ou algo mais. Tinha medo ao lado de um homem com tão pouca fibra em uma casa de vidro e estuque que lhe pareceria surreal. Diria isso, se tivesse vontade própria. Mas não a tem. Tanto que se cala. Sentia-se vítima de um sadismo.

Havia alguém ali, era o que queria dizer. Alguém mais. Havia alguém dentro das paredes, no estuque do teto, erguendo tudo e tudo mantendo em pé, na sopa Vono que está no seu saco e na roupa que te cobre, mas não queima, insensível que és; há alguém, sim, algo menor, mas mais poderoso, alguém que se aprisionou em nossa casa, por tê-la inventado; tenho medo, querido, que essa pessoa entre de repente e nos leve tudo, sem aviso, um homem cruel sob nosso teto tão frágil, tão frágil o estuque, querido, as paredes de vidro - eu falei pra não comprarmos esta casa, como viveremos se há um homem, querido, um homem aqui, entre nós?

- Calma, querida. Aqui não há ninguém.

Sou só eu.

domingo, 23 de março de 2008

Retratos 1

Cecília Strauch, Estudante

Cecília usava como imagem de exibição no seu MSN a função que propõe a conjectura de Collatz. Dessa forma, sempre que algum desconhecido puxava uma conversa perguntando "Essa é a conjectura de Collatz?", ela respondia "Cai fora, nerd". Eu adorava seu senso prático.


André K., Espectador

André tinha só cinco anos quando fez seu pai bater a cabeça na parte de baixo da pia, onde consertava os encanamentos, com uma resolução derradeira:
- Quando crescer, quero ser propaganda de banco.


Haroldo Carvalho Jr. Jr., CEO

Haroldo precisou de 4 anos de terapia, um AVC e uma viagem improvisada o Nepal, onde galgou o topo do mundo, para se dar conta que tudo que ele queria da vida era uma tigela de banana fatiada com Neston.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Três coisas que eu sempre destruo ou perco antes de chegarem ao fim

1 - Canetas Bic
2 - Blocos de Post-it
3 - Relacionamentos

terça-feira, 11 de março de 2008

Ruptura Paroquial por Sinclair Acapulco

Vim inaugurar meu blog. Até agora, quem lhes escreveu foi o menininho bonitinho que mora embaixo da minha cama. Porque eu prendo ele lá. Ele se alimenta dos meus restos de comida. Ei, não me olhem assim! Eu tomo o cuidado de deixar a cartilagem no osso do frango pro menino ter sustância.

(Este é dedicado)

Ruptura Paroquial por Sinclair Acapulco

Acabo de escrever o título e o jargão de meu nome e começo com esta linha, que, ela mesma, começa com “acabo”. Por causa do “Acapulco”, é claro, esse batráquio substantivo que se me apoderou.

Mas agora é sério. É como daquela vez em que ela falou adeus e desligou o telefone, sem mais nem menos, te deixando numa espiral regressiva de depressão, refeições congeladas e telefonemas no escuro para pessoas da lista telefônica cujo nomes inteiros não significassem nada (João Maria da Silva Santos); é sério, agora, como eu dizia: a cultura do efeito rebanho tem que acabar.

Explica-se. O efeito rebanho é o que rege a absoluta desordem quando um coletivo toma uma ação. É o ímã que despe o indivíduo de seu pudor e o arregimenta ao exército de toucinho, seja para protestar acidentalmente, achando que distribuem camiseta grátis, ficar em frente à saída de elevadores portas de metrô ou para se demorar na saída do cinema. E, sem brincadeira, esta ultima é a que mais me amola. Quando me apanho mula andina marchando para a saída em ritmo de procissão fúnebre, sinto-me impotente, ainda que por dentro algo me grite:

Vai, Sinclair

Sobe naquela cadeira e atira teu saco cheio

De pipocas

Nessa gente lenta

E dizei, com força

‘Botai, ó inefável multidão

Para foder!’

Mas ainda tenho que ouvir daquele charlatão de psiquiatra que eu não devo dar bola, não, pra essa vozinha, não, olha, toma mais este remedinho que cê fica legalzão.

Portanto, ouça bem, que por mais que eu vá escrever isto e, pois, poderá tu ler outra vez se lhe apetecer, digo que és burro, ó sibarita caolho de uma perna só, porque ler outra vez é calar esta boca que te escarra; então, dizia, ouça bem, de uma vez:

Quando os crédito rolarem, não ande, mas corra até a saída. Se estiver com tosse, não vá ao espetáculo. Desligue mesmo o celular e não me aborreça com uma cabeça de estatura excepcional – encolha-se na cadeira e mastigue em silêncio com o zelo de um irmão mais novo que tosse no travesseiro para não acordar o primogênito.

Lembre-se que unir-se é emburrecer. Não siga a gente lenta. Fuja, pegue um atalho e vá ao banheiro antes de todo mundo, porque quem urina antes urina melhor. E note que falei em urinar não à toa. Joguei um osso para vocês que têm a indecência e o pouco senso cívico para defecar em lugares que não em vossas próprias casas. Aproveite, cale-se e abaixe a mãozinha antes de perguntar, “mas, e o cocô?”. Isso. Isso mesmo, abaixe. Hunf! Sempre tem um gordinho, não é?

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Minuto Paulistano

Noite, quase madrugada de dia de semana. Ele pára no farol. Sozinho, não passa mais de um segundo, e um carro pára à direita do seu. Motoristas trocam olhares.

Mas surpresa. Ela, no outro carro, sorri. Imediato, ele repara que também já sorria. Embaraçados, desviam - olham os dois pro nada. Depois se olham de novo – é incrível, sorriem! Por um segundo, perguntam-se sozinhos se já se conheciam. Mas não; não, é mais que isso, é muito mais que isso, tanto que pouco importa. Poderiam muito bem já se conhecer, estão dispostos em igual. Crêem os dois que estão apaixonados. O farol continua vermelho, como ambos.

Indecisão. Então ela abre a janela, corajosa. Ele estica o seu braço e abre sua janela de passageiro. Quase riem, bobos. Ela olha em volta, procurando algo para falar. Algo, agora:

- Olha a Lua!

Ele olha. E ri mais, alto. Está linda. Tudo aquilo, será possível?! Ele volta a olhar pra ela, os dois sorrindo como crianças numa piscina. Ele sabe que pode ir mais longe, sabe onde os dois estão:

- Eu costumo esquecer aniversários!

Ela gargalha:

- Odeio que lembrem o meu!

- Eu tenho só dezenove anos!

- Eu tenho só vinte-e-seis!

Agora quem ri é ele:

- Eu moro com meus pais!

- Eu moro sozinha! É perfeito!

Ele estremece, a emoção tomando tudo, suas mãos, o rosto inteiro rubro. Quanta alegria! Ela é tudo! Os cabelos curtinhos, o rosto pequeno, confiante, confiável – aquelas sobrancelhas! Corajosa, a engraçada. – O farol, de repente! – Num impulso, com tudo a perder, ele puxa o freio de mão, salta do seu carro e vai até a janela dela. Atira seu próprio celular no seu colo – saia longa, ele adora – e diz, já correndo para seu carro:

- Amanhã te ligo!

Paralisada, ela sorri e deixa o queixo cair. Ofega, em transe, rindo e soltando ar a um só tempo, mal se contendo.

Ele, gritando, o farol transversal já amarelo:

- Melhor desligar o despertador do meu celular! Está para as oito horas!

Buzinam atrás. Rindo, ela engata a marcha. Pontua:

- Acho que nem vou dormir hoje!

Partem os dois, prontos.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Alegoria da Esperança, ou Perdão

Três meninos, em fila, tentam passar pelo vigia. Este, um homem alto de cem olhos, conserva selada a passagem para o sétimo abismo. Gelado:

­- Alto! Que trazes para esta paragem?

O primeiro menino se ajoelha para responder:

- Trago Solidão.

O guardião se dobra sobre a criança, seu corpo comprido descrevendo um arco obsceno no ar, os olhos, alvos, bem abertos.

Passe – faz o guardião, com desdém.

Passa.

- Alto! Que trazes para esta paragem?

Também ajoelhando, o segundo lhe responde:

- Trago a Culpa, meu senhor. E um punhado de Miséria que o Infortúnio me pôs nos bolsos.

O guardião, arqueando o corpo agudo tão gravemente, seus cem olhos parecem mais desconfiados que o habitual.

- Mostre – ordena, ríspido.

A mãozinha estende-se, e nela vê-se uma água negra de miséria contorcendo-se. Como sangue. O guardião sorri.

- Perfeito. Ótimas referências, ótima criação. Sinto que será muito bem vindo aqui. Ocorre-me lembrar-te que o Infortúnio não é senão ti mesmo, assim como a Culpa é toda tua. Pode passar.

O terceiro menino se aproxima, o rosto frio de lágrimas.

- Pobre criatura – canta o guardião, zombeteiro – Deixe-me adivinhar! Trazes Tristeza! Mas ora, não vai ajoelhar-se? Trazes arrogância também? – cruza os braços com desprezo.

Ardida pelos soluços, a voz do menino é uma vergonha:

- Não me ajoelho, pois isso seria Resignação. Não trago Resignação. Trago estas flores, meu senhor. E peço Perdão.

O vigia dá um salto, incrédulo. Seus cem olhos piscam, agitam-se nas órbitas desconfortáveis, desgovernados. Com uma mão no punhal, aponta para um papel que se insinua entre as flores que o menino carrega, ou para o menino mesmo:

- Isso... Isso é Esperança! – grita, num misto de pavor e ira– Trazes Esperança! Fora daqui! Antes que eu rasgue tuas vísceras e me faça outro par de botas! Fora! .

O rosto do menino se crispa de desespero, mais lágrimas molham suas bochechas. Geme, e as flores enfraquecem para quase morrerem. Crava as unhas no arranjo de papel celofane e crepom com dor, mas não tarda a soltar um sopro de ar num exaspero que lhe sai nuvem vermelha pelas narinas. Respira fundo. Já estivera em todas as paragens, e não topara, nela ou em caminho algum, nem sombra de Cordialidade. Os vigias que não o ameaçavam diziam que a Esperança não aparecia muito por ali, que pouco valiam como valor de troca. “As flores”, diziam eles, “não sobreviverão depois da meia-noite, quando os lobos do Desespero farejarem a quilômetros de distância qualquer aroma de vida”. Não passasse um dos portões, não se ajoelhasse, seria o menino também devorado.

Os cem olhos lívidos do guardião têm as pupilas em tamanhos diferentes. Inquietos, têm sem um tremor de espasmos a sede de morte.

O menino volta à trilha das planícies desconsoladas. A grama exala Aflição, tragada às pressas por abelhas inquietas que constroem fogueiras onde queimarão seus próprios corpos madrugada adentro. Os tatus, antes exímios trabalhadores, já deixaram de cavar tocas; agora cavam covas. Serpentes cegas sangram peçonha, chocando-se umas às outras em celebrações assombrosas de presas e surtos, duelos de morte. Ninguém vê o menino. Todos têm pressa, os uivos já anunciam a retirada do sol.

Abandonado, de novo. Caminha.

Penetrando um mata escura de árvores monumentais de Estoicismo e Indiferença, o menino já busca um lugar seguro para esconder suas flores. Pensa, “Se hei de morrer, como vamos todos, ao menos deve viver a Esperança”. Seus pés doem, estão inchados como os de uma criada. Um corcel cheio de chagas passa trotando por perto – é o fantasma da Punição que o monta. Um cavaleiro sem cabeça que surra o cavalo impiedosamente. O menino estremece. O mundo anda tão escuro sem Ela.

“Se encobre de trevas. Há falta em todo lugar. Uma Saudade velha, sádica, tece a vida de todos com maus agouros e desgosto. Todos vítimas do próprio mundo que habitam. Um erro, e uma eternidade de sofrimento. Será que todos os fins são assim desolados? As únicas flores que vi são estas minhas. Mas serão elas um novo começo? Ou perdê-las-ei quando os lobos me alcançarem?”.

Passa Horas a caminhar, mas as Horas não existem mais. Só existe ausência, vazio, lacunas de espaço sem nome. Não venta. E as trevas já começaram a trepar na abóbada.

O menino arrasta os pés sobre a relva insolente até a exaustão o tomar por completo. Machucado, infeliz. Estúpido, recomeça seu pranto. Pouco mais e perderá as flores. Jogará o vaso para o alto, gritará. Seria assim. Mas avista, lapidado no tronco de uma árvore, uma passagem pequena onde se divisa os primeiros degraus de uma escada, que parece subir pelo interior da madeira.

Por dezoito andares o menino sobre, encontrando no fim das escadas uma porta aberta para um espaço generoso. Dali brota o inconfundível perfume do Amor. Mas a casa parece abandonada. “Mortos, certamente. Ficaria surpreso de encontrar os donos deste Amor ainda vivos. Os lobos e os Erros não poupam nada”.

Silêncio na casa. As flores, quase murchas, expõe óbvias as conseqüências da morte. O fim da Esperança. O menino senta-se, perdido. Já é quase um homenzinho. A pouca luz do ocaso enfrenta as frestas da veneziana na janela. Os uivos, o abandono de novo. Silêncio na casa.

Perde-se. Quase adormece, vencido. Mas.

Um barulho! Em um dos quartos ali, algo suspira. O ar enche-se de uma cor azul-clara, uma essência de recém nascido - satura-se de Inocência, as flores respiram aliviadas e se empertigam com vigor. Em um salto, o coraçãozinho sacudindo o peito magro, o menino ergue-se. Atravessa a sala com pressa, mas se detém com respeito frente à porta. Devagar, abre e pisa o aposento. Aproxima-se do que, à meia-luz, sugere um leito. Formas pequenas, muitas delas, sacodem-se sob as cobertas. Puxa os lençóis de neve, descobrindo uma ninhada fresca e saudável de boas Lembranças. Lembranças em uma cama de solteiro, de Amor de menino. O cheiro o acorda. Felicidade, enfim. A Esperança se alimenta.

Ele se põe de joelho, devoto.

Deixa o vaso ao pé da cama, onde as flores se nutrirão de Inocência e espalharão um jardim. Nascimento. Pleno. Certo de que as flores e os meninos cresceriam.

Sem dúvidas, sem amargor, certo de que em breve haveria um recomeço, mais belo, livre de dores e renovado de Paixão, o menino vai embora para ser devorado pelos lobos.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Termo de Compromisso

Nasceu. Mas não é meu.

Não me responsabilizo. A freqüência de postagens seguirá um princípio de moral estabelecido à bofetadas e cintadas por meu pai nascido em Esparta.

Sobre o Piauí:
Começo dizendo que a revista Piauí não se lê. Se estuda. Sem marca-texto, nada se apreende.
Sobre o estado, sugiro que perguntem aos holandeses.

Encontrei um controle remoto de alarme de carro no chão. Até chegar em casa, fiquei apertando o botão a cada passo, na esperança de abrir um carro desavisado. Ri comigo mesmo da possiblidade de abrir um portão de uma casa.

Como este post de debutação me parece tão precário, e corro risco de deixar meus fãs (que até agora, somados, dão uma fração) insatisfeitos, termino com um emoticon, que hoje em dia faz sucesso entre idosos e japonesas assanhadas, exatamente o tipo de mercado em que estou tentado me inserir:

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