segunda-feira, 31 de março de 2008

A vida secreta das marionetes

Estou preso. Preso e não consigo acordar. A imaginação tem cá seus truques para nos colocar em um pequeno mundo, e os medos os têm para prender-nos neles. Que te parece?

- Que foi isso?! – diz ela, olhando em volta espantada, por trás de suas pernas cruzadas, a sala plácida encontrada por fachos de luz que entravam pela parede de vidro.

Ele, que lia o jornal, confunde-se com a aba da caneca e verte a sopa Vono sobre seu saco.

- Digo, sobre a roupa que cobria seu saco – diz ela.

- O que disse? – ele.

- Nada, - pensei alto – dizia: que foi isso?

- O quê?

Você não ouviu nada?!

Silêncio. Ele pergunta de novo. “O quê?”.

- Você não ouviu nada? – pergunta ela.

- Necas. Que é?

- Nada, acho.

Calam-se. Ele se levanta sem adjetivo nenhum, nem um sorriso ou uma ruga de frustração por ter manchado as calças, e vai buscar papel-toalha. Ela olha em volta um segundo, procurando de novo a voz pelos ângulos da casa. Vê ele, um homem tão bonito, mas que ora se assoma insensível, como se lhe faltasse sangue ou algo mais. Tinha medo ao lado de um homem com tão pouca fibra em uma casa de vidro e estuque que lhe pareceria surreal. Diria isso, se tivesse vontade própria. Mas não a tem. Tanto que se cala. Sentia-se vítima de um sadismo.

Havia alguém ali, era o que queria dizer. Alguém mais. Havia alguém dentro das paredes, no estuque do teto, erguendo tudo e tudo mantendo em pé, na sopa Vono que está no seu saco e na roupa que te cobre, mas não queima, insensível que és; há alguém, sim, algo menor, mas mais poderoso, alguém que se aprisionou em nossa casa, por tê-la inventado; tenho medo, querido, que essa pessoa entre de repente e nos leve tudo, sem aviso, um homem cruel sob nosso teto tão frágil, tão frágil o estuque, querido, as paredes de vidro - eu falei pra não comprarmos esta casa, como viveremos se há um homem, querido, um homem aqui, entre nós?

- Calma, querida. Aqui não há ninguém.

Sou só eu.

domingo, 23 de março de 2008

Retratos 1

Cecília Strauch, Estudante

Cecília usava como imagem de exibição no seu MSN a função que propõe a conjectura de Collatz. Dessa forma, sempre que algum desconhecido puxava uma conversa perguntando "Essa é a conjectura de Collatz?", ela respondia "Cai fora, nerd". Eu adorava seu senso prático.


André K., Espectador

André tinha só cinco anos quando fez seu pai bater a cabeça na parte de baixo da pia, onde consertava os encanamentos, com uma resolução derradeira:
- Quando crescer, quero ser propaganda de banco.


Haroldo Carvalho Jr. Jr., CEO

Haroldo precisou de 4 anos de terapia, um AVC e uma viagem improvisada o Nepal, onde galgou o topo do mundo, para se dar conta que tudo que ele queria da vida era uma tigela de banana fatiada com Neston.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Três coisas que eu sempre destruo ou perco antes de chegarem ao fim

1 - Canetas Bic
2 - Blocos de Post-it
3 - Relacionamentos

terça-feira, 11 de março de 2008

Ruptura Paroquial por Sinclair Acapulco

Vim inaugurar meu blog. Até agora, quem lhes escreveu foi o menininho bonitinho que mora embaixo da minha cama. Porque eu prendo ele lá. Ele se alimenta dos meus restos de comida. Ei, não me olhem assim! Eu tomo o cuidado de deixar a cartilagem no osso do frango pro menino ter sustância.

(Este é dedicado)

Ruptura Paroquial por Sinclair Acapulco

Acabo de escrever o título e o jargão de meu nome e começo com esta linha, que, ela mesma, começa com “acabo”. Por causa do “Acapulco”, é claro, esse batráquio substantivo que se me apoderou.

Mas agora é sério. É como daquela vez em que ela falou adeus e desligou o telefone, sem mais nem menos, te deixando numa espiral regressiva de depressão, refeições congeladas e telefonemas no escuro para pessoas da lista telefônica cujo nomes inteiros não significassem nada (João Maria da Silva Santos); é sério, agora, como eu dizia: a cultura do efeito rebanho tem que acabar.

Explica-se. O efeito rebanho é o que rege a absoluta desordem quando um coletivo toma uma ação. É o ímã que despe o indivíduo de seu pudor e o arregimenta ao exército de toucinho, seja para protestar acidentalmente, achando que distribuem camiseta grátis, ficar em frente à saída de elevadores portas de metrô ou para se demorar na saída do cinema. E, sem brincadeira, esta ultima é a que mais me amola. Quando me apanho mula andina marchando para a saída em ritmo de procissão fúnebre, sinto-me impotente, ainda que por dentro algo me grite:

Vai, Sinclair

Sobe naquela cadeira e atira teu saco cheio

De pipocas

Nessa gente lenta

E dizei, com força

‘Botai, ó inefável multidão

Para foder!’

Mas ainda tenho que ouvir daquele charlatão de psiquiatra que eu não devo dar bola, não, pra essa vozinha, não, olha, toma mais este remedinho que cê fica legalzão.

Portanto, ouça bem, que por mais que eu vá escrever isto e, pois, poderá tu ler outra vez se lhe apetecer, digo que és burro, ó sibarita caolho de uma perna só, porque ler outra vez é calar esta boca que te escarra; então, dizia, ouça bem, de uma vez:

Quando os crédito rolarem, não ande, mas corra até a saída. Se estiver com tosse, não vá ao espetáculo. Desligue mesmo o celular e não me aborreça com uma cabeça de estatura excepcional – encolha-se na cadeira e mastigue em silêncio com o zelo de um irmão mais novo que tosse no travesseiro para não acordar o primogênito.

Lembre-se que unir-se é emburrecer. Não siga a gente lenta. Fuja, pegue um atalho e vá ao banheiro antes de todo mundo, porque quem urina antes urina melhor. E note que falei em urinar não à toa. Joguei um osso para vocês que têm a indecência e o pouco senso cívico para defecar em lugares que não em vossas próprias casas. Aproveite, cale-se e abaixe a mãozinha antes de perguntar, “mas, e o cocô?”. Isso. Isso mesmo, abaixe. Hunf! Sempre tem um gordinho, não é?