Estou preso. Preso e não consigo acordar. A imaginação tem cá seus truques para nos colocar em um pequeno mundo, e os medos os têm para prender-nos neles. Que te parece?
- Que foi isso?! – diz ela, olhando em volta espantada, por trás de suas pernas cruzadas, a sala plácida encontrada por fachos de luz que entravam pela parede de vidro.
Ele, que lia o jornal, confunde-se com a aba da caneca e verte a sopa Vono sobre seu saco.
- Digo, sobre a roupa que cobria seu saco – diz ela.
- O que disse? – ele.
- Nada, - pensei alto – dizia: que foi isso?
- O quê?
Você não ouviu nada?!
Silêncio. Ele pergunta de novo. “O quê?”.
- Você não ouviu nada? – pergunta ela.
- Necas. Que é?
- Nada, acho.
Calam-se. Ele se levanta sem adjetivo nenhum, nem um sorriso ou uma ruga de frustração por ter manchado as calças, e vai buscar papel-toalha. Ela olha em volta um segundo, procurando de novo a voz pelos ângulos da casa. Vê ele, um homem tão bonito, mas que ora se assoma insensível, como se lhe faltasse sangue ou algo mais. Tinha medo ao lado de um homem com tão pouca fibra em uma casa de vidro e estuque que lhe pareceria surreal. Diria isso, se tivesse vontade própria. Mas não a tem. Tanto que se cala. Sentia-se vítima de um sadismo.
Havia alguém ali, era o que queria dizer. Alguém mais. Havia alguém dentro das paredes, no estuque do teto, erguendo tudo e tudo mantendo em pé, na sopa Vono que está no seu saco e na roupa que te cobre, mas não queima, insensível que és; há alguém, sim, algo menor, mas mais poderoso, alguém que se aprisionou em nossa casa, por tê-la inventado; tenho medo, querido, que essa pessoa entre de repente e nos leve tudo, sem aviso, um homem cruel sob nosso teto tão frágil, tão frágil o estuque, querido, as paredes de vidro - eu falei pra não comprarmos esta casa, como viveremos se há um homem, querido, um homem aqui, entre nós?
- Calma, querida. Aqui não há ninguém.
Sou só eu.
Cecília Strauch, Estudante