terça-feira, 19 de agosto de 2008

Do livro de memórias de Sinclair

Comemorando sozinho o meu trigésimo nono aniversário, o abrir da garrafa de Bourbon à frente da luz de uma única vela me incorreu em um lampejo súbito, e dei-me conta de que não estava comemorando 39 anos, mas 41.

São as pequenas delícias de uma vida solitária. Correndo até o calendário (que guardo ao lado da tesoura de costura, geralmente usada para abrir o leite, e um molho de chaves mortas na gaveta da cozinha), percorri o 6 de outubro desde o meu nascimento, me esforçando para encontrar a minha pessoa em todos os meus aniversários. Concluí que simplesmente me esqueci de comemorar o 21º aniversário – provavelmente em ocasião da Grande Fuga, que me tomava toda a energia e o esforço mental à época. Comemorei 21 anos no ano seguinte quando completava 22. Como se não bastasse, coisa semelhante se repetiu aos meus 30 anos, por ocasião de um relacionamento especialmente ruim que acabou em chantagens e assassinato (à velha moda grega).

Com ninguém ou quase ninguém para lembrar-me de minha idade, fui enganado até que a garrafa de Jack Daniel’s à frente da luz mortífera me trouxe de volta os dois anos de velhice. Quantos segredos não se escondem em uma garrafa de destilado... Naquela mesma noite, o líquido castanho me presenteou com olhos turvos, e a chama da vela me trouxe à lembrança a língua quente de minha segunda namorada.

- Ai! Minha ‘coja’!

Soltando os dentes de pele, que agora tinha um anel vermelho da fileira de dentes, olhei para cima e perguntei:

- Minha o quê?

- Minha ‘coja’! Você mordeu minha ‘coja’.

Naquele mesmo ano eu havia desenvolvido a capacidade de falar palavras em itálico:

- ‘Coja’?! Eu mordi sua coxa. Você tem mais uma chance para acertar a pronúncia da palavra.

- Co... Ah, dane-se. Seu fascista. Minha perna, pronto, você mordeu minha perna. Quem liga?

Eu ligava. Levantei.

- Vou comprar cigarros.

Não fumava. E não voltei.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

A Repórter Televisiva de TPM

Vai à rua fazer o que faz de melhor. Aborda um casal jovem, ela negra e bonita, ele branco e vermelho como um russo estapeado, cara de menino, sem muito saber o que fazer.

- São só umas perguntinhas fáceis, não demora nada – sorri a âncora.

O casalzinho sorri, crianças prestes a ganharem um punhado de balas Iogurte 100, que são gostosas até que você come uma dúzia delas e repara que o sabor é idêntico ao cheiro de um saco de lixo vazio. Opa, devaneio - e não existo, narrador invisível que sou. Volto ao casal, que sorri, dizia. A repórter arruma o cabelo, dá o sinal para o câmera. Nos segundos antes da fita gravar, parece irritada, ou quem está prestes a chorar, mas sorri como JK em cima de um fusca. Começam as perguntas, dirigidas a ambos:

- Você acredita que o brasileiro é preconceituoso?

- Não, de jeito nenhum. Isso é coisa de americano – responde ela.

- É, é, concordo, concordo. – fala o menino, meio olhando para o chão, se avermelhando como se tivessem estapeado mais ainda o russo da comparação do primeiro parágrafo.

- Mas vocês dois nunca receberam um olhar estranho por serem de raças diferentes?

- Ah, às vezes tem, mas não dá pra saber se é porque ele parece um russo estapeado, se é porque eu sou bonita ou qualquer coisa assim. Não dá. Racismo é coisa de americano. – ela de novo.

- É, concordo, concordo. – a mesma pantomima infeliz.

Os argutos telespectadores notariam que neste momento nossa repórter encara o menino com a boca semi-aberta com uma cara de asco muito mal disfarçada. Permanece assim por alguns segundos, encarando o menino nos olhos, a boca pendendo, até que desperta de repente e solta a terceira pergunta:

- Vocês estão juntos há quanto tempo?

- Dois anos e meio agora. Fazemos aniversário hoje! – anima a menina, olhando para a câmera de frente.

- É, dois anos e meio sim. – diz aquele menino, de novo com o jeitinho de olhar pro chão e ficar vermelho.

“O-ou”, diz o câmera. As sobrancelhas de nossa repórter se envergam como bailarinas e ela dirige-se somente ao menino, apontando o microfone como se quisesse mostrá-lo à vítima antes de enfiá-lo goela abaixo:

- E vem cá, você é cachorrinho, é? É cachorrinho que você é?

Coitado, ele não entende, e sorri esperançoso para a repórter. Mas não dura muito:

- Ela bate em você é? Você só concorda com ela, não diz nada não? – ela já estourou, os filamentos pipocaram, descabela-se, furiosa, mas ainda fala no microfone – Sabe, você devia arruma uma camiseta escrito “pergunte a ela” e andar do ladinho dela assim, ó. Aí se alguém perguntasse alguma coisa você só apontava a camiseta, sabe? “Lê aqui, ó”! Trouxa! Você é um trouxa mesmo, seu trouxa! Eu não agüento mais essa merda. Eu quero um homem de verdade! Alguém tem bolas nesse lugar?! – grita para toda a Avenida Paulista – Alguém tem bolas?! Ninguém?! E sabia... E você! – olha para a menina, que já cravara as unhas no braço de menino, tendo ele feito o mesmo com sua mão livre, os dois encolhidos – dois anos e meio com esse... Esse... Esse menino?! Me-ni-no, é o que você é – a ele, o dedo a centímetros do rostinho – Vai chorar, neném?! Quer chorar, menininho?! VAI CHORAR?!

Então ela pára, de repente, e seu rosto se entristece. Uma nuvem encolhe suas feições, ela desesperada de tristeza, chora alto:

- Eu estou tão sozinha... E eles, eles tem um ao outro. Minha mãe, ela não me dava o peito, só a mamadeira. Eu sou uma vaca frígida. Ninguém gosta de mim, e esse menino, ele... Ele é só um menino, eu sou uma monstra – soluça - Eu não quero mais, Vieira, sai pra lá com essa câme-- cai o áudio porque ela finalmente larga o microfone e sai cambaleando de tristeza.

A câmera filma ela por um tempo, depois volta ao casal boquiaberto, volta à repórter, que já chama um táxi, volta ao casal boquiaberto. Passam séculos e bolas de feno. Aí o menino se recupera e pergunta ao câmera:

- Vai ao ar quando?