Vai à rua fazer o que faz de melhor. Aborda um casal jovem, ela negra e bonita, ele branco e vermelho como um russo estapeado, cara de menino, sem muito saber o que fazer.
- São só umas perguntinhas fáceis, não demora nada – sorri a âncora.
O casalzinho sorri, crianças prestes a ganharem um punhado de balas Iogurte 100, que são gostosas até que você come uma dúzia delas e repara que o sabor é idêntico ao cheiro de um saco de lixo vazio. Opa, devaneio - e não existo, narrador invisível que sou. Volto ao casal, que sorri, dizia. A repórter arruma o cabelo, dá o sinal para o câmera. Nos segundos antes da fita gravar, parece irritada, ou quem está prestes a chorar, mas sorri como JK em cima de um fusca. Começam as perguntas, dirigidas a ambos:
- Você acredita que o brasileiro é preconceituoso?
- Não, de jeito nenhum. Isso é coisa de americano – responde ela.
- É, é, concordo, concordo. – fala o menino, meio olhando para o chão, se avermelhando como se tivessem estapeado mais ainda o russo da comparação do primeiro parágrafo.
- Mas vocês dois nunca receberam um olhar estranho por serem de raças diferentes?
- Ah, às vezes tem, mas não dá pra saber se é porque ele parece um russo estapeado, se é porque eu sou bonita ou qualquer coisa assim. Não dá. Racismo é coisa de americano. – ela de novo.
- É, concordo, concordo. – a mesma pantomima infeliz.
Os argutos telespectadores notariam que neste momento nossa repórter encara o menino com a boca semi-aberta com uma cara de asco muito mal disfarçada. Permanece assim por alguns segundos, encarando o menino nos olhos, a boca pendendo, até que desperta de repente e solta a terceira pergunta:
- Vocês estão juntos há quanto tempo?
- Dois anos e meio agora. Fazemos aniversário hoje! – anima a menina, olhando para a câmera de frente.
- É, dois anos e meio sim. – diz aquele menino, de novo com o jeitinho de olhar pro chão e ficar vermelho.
“O-ou”, diz o câmera. As sobrancelhas de nossa repórter se envergam como bailarinas e ela dirige-se somente ao menino, apontando o microfone como se quisesse mostrá-lo à vítima antes de enfiá-lo goela abaixo:
- E vem cá, você é cachorrinho, é? É cachorrinho que você é?
Coitado, ele não entende, e sorri esperançoso para a repórter. Mas não dura muito:
- Ela bate em você é? Você só concorda com ela, não diz nada não? – ela já estourou, os filamentos pipocaram, descabela-se, furiosa, mas ainda fala no microfone – Sabe, você devia arruma uma camiseta escrito “pergunte a ela” e andar do ladinho dela assim, ó. Aí se alguém perguntasse alguma coisa você só apontava a camiseta, sabe? “Lê aqui, ó”! Trouxa! Você é um trouxa mesmo, seu trouxa! Eu não agüento mais essa merda. Eu quero um homem de verdade! Alguém tem bolas nesse lugar?! – grita para toda a Avenida Paulista – Alguém tem bolas?! Ninguém?! E sabia... E você! – olha para a menina, que já cravara as unhas no braço de menino, tendo ele feito o mesmo com sua mão livre, os dois encolhidos – dois anos e meio com esse... Esse... Esse menino?! Me-ni-no, é o que você é – a ele, o dedo a centímetros do rostinho – Vai chorar, neném?! Quer chorar, menininho?! VAI CHORAR?!
Então ela pára, de repente, e seu rosto se entristece. Uma nuvem encolhe suas feições, ela desesperada de tristeza, chora alto:
- Eu estou tão sozinha... E eles, eles tem um ao outro. Minha mãe, ela não me dava o peito, só a mamadeira. Eu sou uma vaca frígida. Ninguém gosta de mim, e esse menino, ele... Ele é só um menino, eu sou uma monstra – soluça - Eu não quero mais, Vieira, sai pra lá com essa câme-- cai o áudio porque ela finalmente larga o microfone e sai cambaleando de tristeza.
A câmera filma ela por um tempo, depois volta ao casal boquiaberto, volta à repórter, que já chama um táxi, volta ao casal boquiaberto. Passam séculos e bolas de feno. Aí o menino se recupera e pergunta ao câmera:
- Vai ao ar quando?